A vida de um conde surfista em Búzios: Michel Graf conta que trocou a realeza pelas pranchas


Graf em sua terra natal. Foto: Divulgação

A cidade de Búzios tem a sua a fama e é reconhecida mundialmente. E isso atrai turistas do mundo inteiro e até mesmo estrangeiros a morarem no balneário do interior do Rio de Janeiro. Mas um fato curioso chama a atenção: um integrante da realeza tcheca resolveu morar em Búzios. Michel Graf é conde da República Tcheca e atualmente mora na Região dos Lagos. Mas e aí, o que ele tem com o surf? Tudo. Graf rodou o mundo atrás das ondas, morou dentro de um carro no Havaí, morou em Portugal, Panamá, Indonésia e outros. Michel tem 55 anos e nasceu no Leblon, no Rio de Janeiro, e ele o seu pai é príncipe. Graf atualmente trabalha como artista, pega as suas ondas e de vez em quando dá as suas aulas na Praia de Geribá. O Cutback conversou com o Conde para entender a sua trajetória no meio do surf e da realeza. Graf teve toda a possibilidade de viver com riqueza, mas conta que escolheu viver com simplicidade. Confira! Cutback: Você rodou o mundo e surfou nos picos mais incríveis pra qualquer surfista. O que fez você escolher Búzios?


Michel: A gente escolheu Búzios porque a gente queria uma vida ligada mais a praia mesmo, uma vida simples, longe de cidade grande, ligado ao turismo e artesanato. A família toda mexe com artes né, pinta, faz as pranchas e lida com muitos turistas, a família sempre teve amigos de fora do Brasil, a gente sempre recebia eles na nossa casa, a gente acostumou a apresentar o Brasil para os amigos estrangeiros, a gente levava eles no Cristo Redentor, e em tudo quanto é lugar.


Então a gente acabou começando a trabalhar com o turismo também. Minha mãe sempre produziu artesanato, roupas pintadas, quadros, etc. Então foi assim. ai acabamos escolhendo Búzios porque já tínhamos amigos que moravam aqui, minha mãe frequentava Búzios desde os anos 70, eu vinha desde criança pra cá, então a gente achou que poderia ser legal morar num lugar tão bonito, a gente acabou desejando morar aqui, não foi nem tanto por causa das ondas.


Foi mais pelo astral do lugar, ser muito bonito e cheio de artista nos anos 70, barzinhos com musical e tal, isso aí foi um atrativo muito grande. Pelas ondas também não tenho muito o que reclamar, Geribá é muito consistente, é uma onda que tem vários tipos de dias diferentes, dá para curtir tranquilamente Geribá, sem problema nenhum.

Michel em sua oficina de pranchas. Foto: Divulgação

Cutback: De onde veio a paixão pelo surf e a vontade de começar a surfar?


Michel: A vontade de surfar foi porque a gente cresceu ali no Leblon né , no final do Leblon, no Rio de janeiro. Eu nasci em 1965, então com 5/6 anos de idade a gente já via os surfistas passando, com cabelo comprido, pranchas e outras pranchas importadas e tal. Então a gente desde criancinha olhava os surfistas.

E naquela época era normal os pais darem pranchas de isopor pros filhos no natal. Primeiro a gente achou umas pranchas quebradas na praia, eu e meu irmão, a gente tinha 5/6 anos e começamos a pegar estouradas, brincar. Quer dizer, ali foi o início, a gente sempre gostou de surfar porque a gente nasceu ali no mar no Leblon, e o meu pai e a minha mãe iam fazer churrascos na Prainha, Grumari e a gente ia com eles e acabava pegando onda o dia inteiro, e isso entrou no sangue, esse negócio de surfa.


Naquela época as crianças surfavam muito deitado mesmo, no isopor, e era muito divertido porque tirava cada tubão, e ali a gente já se considerava surfista. Você vê, só aos 13 anos de idade que eu comecei a surfar com prancha de fibra, hoje em dia é bem diferente né. Então a gente fez a escolinha toda, surf de peito, surf de prancha de isopor deitado e depois o surf em pé né Cutback: Você segue sendo um conde ou teve que abrir mão ao sair da República Tcheca?


Michel: Esse negócio de ser conde, príncipe e tudo isso é porque é história da família. Isso vem de quase mil anos de história. Eles começaram com guerreiros, cavaleiros, se saíram muito bem em guerras, eram pessoas normais, mas eram guerreiros cavaleiros, então isso aí veio vindo e eles se saíram tão bem nas missões deles lá nas guerras e tudo que acabaram sendo remunerado. Ganharam terras que você não consegue nem enxergar de tão grandes, eram quase um país. Que um Rei ou um Príncipe deu pra eles e eles acabaram se tornando Príncipes né, de tanta terra e tanto dinheiro e a nunca mais eles precisavam guerrear, eles começaram a estudar. Os Príncipes eram agrônomos, eram artistas e tal, então a família ganhou esse título de nobreza muito tempo atrás nas guerras. Esse título vem acompanhando nossa família desde sempre. Então eu me considero um Conde porque eu nasci e falaram pra mim: você é Conde o pai é Príncipe, então isso a gente tem dentro da gente, não é uma coisa que a pessoa é o não é, entendeu. Isso ai tem a nossa história dentro, então você quer falar que eu sou Conde, eu fico rindo. Eu acho legal, mas claro não existe mais isso hoje em dia. É por aí né, a gente sente isso no coração, é a história da família.


Aliás, perdão, até existe, Conde, Príncipes em outros países aí, mas não aqui no nosso, e na Tchecoslováquia também não existe mais né. Mas lá a gente é muito respeitado, quando a gente vai lá eles recebem bem a gente, a prefeitura nos recebe e é muito legal ne, fazer parte da história da família.


Cutback: Olhando sua trajetória de vida até aqui, você se sente realizado? O surf te levou onde queria?


Michel: Então o surf tá me levando onde eu queria sim e a gente vai tentando shapear a prancha, viajar pelo mundo e falar sobre surf, respeitar o passado que é muito importante, relembrar as estrelas do passado é legal, manter a história do surf brasileiro viva, é importante e isso não acontece muito, então é muito bacana de vocês estarem procurando entrevistar pessoas mais velhas também, porque o jovem precisa das informações dos mais velhos pra ele construir seu próprio mundo do surf, ele precisa dessa bagagem, da história do surf brasileiro que é pouco divulgada, então é muito bacana isso aí que vocês estão fazendo.

Graf anos atrás. Foto: Divulgação

Cutback: A vida pacata de Búzios, cidade pequena, viver perto da praia. Foi isso que o fez começar com a escolinha de surf? Conta essa história.


Michel: A escolinha de surf que você mencionou ali na pergunta, é uma coisa que nunca teve. Você lembra que o Rico de Souza começou com as primeiras escolinhas, e tal oi muito bacana e o esporte cresceu muito, não sou nada contra as escolinhas só sou a favor delas, muita gente precisa até para evoluir rápido no surf, porque é um esporte que ele vai levar tempo pra você ficar bom, então a escolinha é super importante. Eu tive mais era aluguel de pranchas e concertos, a escolinha eu comecei a dar umas aulinhas porque as pessoas pediam, eu não tinha escolinha, eu dava aula porque pediam. Foi legal, é muito bacana poder ensinar também.


Acho que foi por acaso, porque aqui a gente não tinha como trabalhar. Então o surfista chegou aqui e vai dar aula de surf, é mais ou menos isso. Eu vi que tinha muita gente querendo aula e a gente foi dar aula, mas na verdade não é porque a gente chegou aqui em Búzios e a cidade é pequena e vamos escolinha. é porque tinha muita demanda né, o pessoal quer aprender a surfar. Então é bacana fazer eles evoluírem rápido, passar experiência para eles, que equipamento usar e tal. Então é só um complemento da oficina, e muita gente chega e quer aula.


Hoje em dia eu já passo os alunos todos pra escola no Theo Fresia, a gente tem parceria, eu passo os alunos todos lá pra escola dele, surfista profissional, primeira linha então ele tá fazendo um bom trabalho de aulinha lá. Eu sempre gostei de shapear prancha. E essa paixão veio depois que eu voltei do Havaí e do Japão que eu comecei a colecionar pranchar e shapear, então meu trabalho mesmo é shapear e consertar prancha.

Michel morou em praias pelo mundo. Foto: Divulgação

Cutback: Um conde surfista que rodou o mundo e parou em Búzios. Qual o melhor lugar que você já surfou?


MIchel: O mundo tem muita onda boa né, você vê: eu já fui nas Filipinas, no México, viajei pelo Japão bastante, conheci ilhas japonesas, morei no Havaí por 2 anos. Morei num carro no Havaí, acordava nas melhores praias pegando onda, peguei altas ondas no Havaí, principalmente na praia de Laniakea e Sunset. Morei na praia de Waymea, acordava e já ia pra praia ali mesmo em frente de casa, Morei em Portugal, fui pro Panamá, fui pra vários lugares surfar. Fui para Indonésia, Micronésia e Melanésia. Morei na Califórnia.

Eu sei que a Indonésia é fantástica pra surfar, ninguém pode dizer o contrário sobre isso, a Indonésia é fantástica. A Austrália também. Tem uns lugares sensacionais aí no mundo Mas você estar dentro do mais havaiano quando esse mar tá bom, bonito, é impressionante. Então, respondendo a pergunta, as melhores ondas são no Havaí, não tem jeito. Quando o mar lá quebra bom, você volta a ser aquele garotinho que tá começando a surfar, entendeu, porque você não tem experiência para aquilo, é uma coisa nova.


Foi o que aconteceu comigo quando eu tinha 28 anos de idade. Pegamos um mar lá no Havaí que você volta a ser criança, não tem jeito. Como é que funciona uma prancha, a gente quase não usava naquela época no Brasil. E aquela pressão daquelas ondas, o tamanho, o canal ali enorme em Sunset Beach, é um impacto muito grande. Então eu considero o Havaí como um dos melhores lugares do mundo que eu surfei.

Até em carro o Graf morou. Foto: Arquivo Pessoal

Cutback: Com tanta experiência e bagagem no mundo do surf, qual o conselho que você deixa pra galera que está chegando agora?

Michel: Pra quem tá começando agora no surf e quer viver a vida do surf, tem que simplificar o máximo. Depende se a pessoa não tem muito dinheiro tem que simplificar ao máximo. Eu quando era jovem pensava em morar em praias que não tinham ninguém, Altas ondas e ninguém, só uma vila de pescadores. Eu falava pro meu pai: "Pai, eu quero morar ali, compra um terreninho ali de mil reais pra mim e eu vou me virar, vou montar um barzinho, vou botar um quartinho pra alugar pra algum turista surfista," Eu acho que o surfista tem que começar assim. Na minha época era assim . A gente viajava com calções pra vender, com o que tinha em casa e levava. Pegava as comidas todas da dispensa, enlatados de tudo e levava, ficava um mês lá na Guarda do Embaú, viajava pelo Brasil com pouco dinheiro, entendeu?


Então a gente já tinha aquele espírito de aventura do surfista, dos anos 70 de pagar a estrada. Naquela época era viajar, o barato era viajar, então eu já estava decidido, eu queria um cantinho em algum lugar que desse altas ondas e ali eu ia fazer minha vida.

Então o conselho é esse: você quer ser um surfista mesmo, então você tem que ficar do lado onde tem altas ondas, não tem como você morar longe, não tem como você fazer uma carreira num trabalho que não vai deixar você surfar. Você tem que aceitar aquela vida simples de surfista, aprender de repente a ser pescador. Antigamente a gente não pensava em outra coisa a não ser o surf, então não interessava pra gente a vida de dinheiro e carreiras, eta.


Que é um pouco diferente hoje né, não sei se tem tanta oportunidade. Você vê as praias hoje em dia, os lugares famosos estão todos tomados. Maresias era uma vila quando eu fui lá conhecer né. Eu ia muito pra Maresias, para Guarda do Embaú, então esses lugares eram vazios, hoje em dia já lotou tudo quanto é lugar, então tá em mais difícil né, mas se o cara quer ser surfista ele consegue, ele acha o caminho dele, até hoje em dia ele acha. Dá pra conseguir. Então o meu conselho é: Vai pra frente com coragem, sem medo! Se a pessoa quer viver a vida do surf, vai pra cima, vai contudo. Porque pelo contrário ele vai se dedicar a outra coisa então que não vai deixar ele feliz, não pode.

Colaborou Samantha Orige*


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