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"Achei que fosse morrer ou ficar paralítico" - Stephan Figueiredo conta o seu maior perrengue no mar


A bomba de The Wedge. Foto: Luiza Campos

Nesta semana o Blog Cutback teve a honra de entrevistar o Stephan Figueido, um dos melhores surfistas do Rio de Janeiro e que está tendo o dobro do destaque com o seu canal no YouTube: Man At Water. Stephan é casca grossa e é só o mar subir que lá está ele dentro da água. Um tube rider nato, um dos melhores do mundo. O carioca se dedica a anos ao freesurf, morou um período no Havaí e viajou bastante pelo planeta atrás de ondas perfeitas. Em 2015, o Phan - como é conhecido - foi até a Califórnia em busca de uma ondulação de tamanho. Chegando lá, o atleta pegou a famosa e temida The Wedge. A The Wedge, na Califórnia, é uma onda estranha. Fotogênica, ela quebra quase na beira da praia, oca, cavada, quase como um grande quebra-coco. Algumas ondas abrem, muitas fecham, e quando o mar fica grande centenas de pessoas se aglomeram na areia para assistir à 'carnificina' proporcionada pelo mar. Só pela definição da onda que o Stephan pegou já da para perceber o quão brabo ele é. Ao Cuback, Phan contou um pouco da sua trajetória, das ondas que surfou no interior do Rio de Janeiro, de como fez para perder o medo dos mares grandes e mais! Confira. Cutback: Você já caiu em algumas ondas da Região dos Lagos? Cabo Frio, Arraido do Cabo, Saquarema ou Búzios?

Stephan: Já surfei todos esses lugares da Região dos Lagos, tanto Cabo Frio, quanto Arraial, Saquarema e Búzios e já até morei um tempo em Saquarema. Passei seis meses lá direto morando na casa do pai do Raoni, o Jacaré. Isso em 2001, eu acho, alguma coisa assim. E sem dúvidas onde eu peguei as melhores ondas, foi em Itaúna e Praia da Vila. Pô muito bom ali, muito bom mesmo.

Cutback: Se sim, qual a melhor onda da localidade?

Stephan: Saquarema tem constância de onda internacional e qualidade internacional. É bom demais, pra mim é um dos melhores, se não o melhor do Brasil pra surfar.

Aquela ondulação gigante batendo na laje. Foto: Divulgação

Cutback: Você é um dos caras mais casca grossa do surf do Rio de Janeiro. Como fez para perder o medo dos mares?

Stephan: Foi meio natural, porque eu sempre gostei do mar, eu surfo desde que tenho 8 anos e lógico que já passei um monte de perrengue e quando eu era mais novo tinha mais medo, mas sempre gostei de onda grande, da adrenalina de estar no mar. Quando o mar subia e sempre tive pessoas ao redor botando pilha para surfar quando o mar estava grande no Rio de Janeiro. Aí quando foi a época que comecei a ir para o Havaí, eu olhava as fotos na revista e sempre tive vontade de surfar aquelas ondas, falava ‘um dia vou pegar essa onda’ e um dia eu fui lá e peguei [risos]. Então foi meio que um instinto natural, foi algo que eu queria muito.

Cutback: O seu canal do YouTube ajuda muito surfista que tem algumas dúvidas em qual prancha usar em determinado mar. Você tem a noção que auxilia muita gente?

Stephan: Cara... Não, eu não tenho não. Na verdade, quando eu fiz o canal não tinha noção que ia ter um feedback tão legal da galera. O retorno tão maneiro com mensagens positivas. Existem vários motivos que comecei a fazer o canal, mas um deles foi para levar o surf para galera que não tem a oportunidade de surfar todo dia, entendeu? Tem gente que surfa uma vez por semana, duas vezes por semana, às vezes uma vez por mês e como eu tenho a oportunidade de estar na praia todo dia surfando ou pelo menos quase todo dia, eu queria levar essa experiência pra quem não pode, entendeu? E como eu gosto de assistir alguns vídeos, como por exemplo: de moto; gosto de assistir vídeo que a galera está viajando de moto e eu não tenho a oportunidade de estar viajando de moto toda hora, nem fazer mecânica. Então é a forma que eu estava vendo, eu estava viajando ali com o cara e eu estava em casa. Eu queria passar isso para o cara que gosta de surfar. Eu estou aqui na praia surfando e quero que o cara se sinta mais na praia e ali ele possa aprender alguma coisa também.

Aquela esquerda dos sonhos. Foto: Divulgação

Cutback: As suas pranchas fazem sucesso. Você faz os seus models? Já pensou em produzir as suas pranchas?

Stephan: Não pensei em fazer minhas pranchas, botar a mão na massa. Engraçado que quando eu entro na sala de confecção me da um sono do cacete, eu adoro ver, mas parece que tem um sonífero dentro da sala que me da um sono. Adoro conversar com o shaper e adoro falar sobre as pranchas, trocar um ideia para ver o que é melhor, o que funciona e o que não funciona, para que tipo de mar, trocar todas as ideias, trocar todas as informações possíveis com o shaper. Tem um modelo de prancha que eu gosto mais, às vezes eu trabalho com o shaper em cima de um modelo de prancha só, mas na verdade eu gosto que o shaper crie e experimente. Eu gosto de estar surfando sempre com um modelo de prancha diferente para ver se da motivação de experimentar coisa nova e estar sempre querendo surfar mais.

Cutback: Como foi o período de isolamento onde não se pode surfar? Treinou em casa, ficou com a família...?

Stephan: Não treinei, a verdade é essa que não treinei em casa. Eu estou com duas crianças, uma de quatro meses e outra de dois anos. Então, é muito puxado ficar com duas crianças em casa, tem que ficar o dia inteiro de olho neles para eles não fazerem nenhuma besteira e para falar a verdade eu nem tinha tempo para sair de casa para fazer nada. Ia ao mercado para fazer compra e olhe lá. Agora como as coisas começaram a ficar um pouco mais leves, minha sogra começou a ir lá em casa e ajudar.

Então comecei a ter um tempo mais para mim, porque no começo era muito complicado. Mesmo se eu quisesse sair de casa para fazer as coisas, eu nem podia. Não dava, não tinha como. Quem teve nessa quarentena com duas crianças em casa sabe do que eu estou falando, porque não é mole, não. Ainda mais se não tiver ajuda de ninguém.

Cutback: Conta algum perrengue que você já passou em um mar gigante.

Stephan: Já passei vários perrengues, vários... Vou contar um que acho que foi o mais forte talvez. Foi que estava no Havaí surfando Pipeline e o mar estava grande, devia ter uns 8, 10 pés [3 metros], tinhas umas séries maiores vindo no segundo riff e eu peguei uma onda que parecia ser maior ondão, remei na onda e falei ‘pô beleza, peguei maior ondão e vou botar pra dentro’, remei ela meio do segundo riff e ela não quebrou buraco na bancada e consegui dropar. Quando eu cheguei na base, ela começou a ficar cavada, na hora que eu comecei a cavar na parede para botar para dentro, a onda que parecia que ia ser maior tubão começou a fechar, ela começou a fechar um triângulo na minha cabeça, parecia que tinha um X na minha cabeça, ai eu botei reto. Eu não quis botar para dentro porque estava muito raso, muito buraco a onda.

Quando eu botei reto, ela quebrou exatamente em cima da minha cabeça. Tentei pular para ver se fugia do lipe e não consegui. Tive uns 5 segundos que meu corpo ficou todo dormente, eu achei que fosse morrer ou ficar paralítico, que era o fim da minha vida, aí eu comecei a mexer meu corpo e sentir que estava tudo normal. Aí eu saí da água agradecendo por estar vivo. Acho que esse foi o pior perrengue, o mais forte assim pra mim. Passei vários outros.

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