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"Arraial tem uma variedade de ondas muito boas" - Eric Ribiere fala com o Cutback


Eric em um belo tubo. Foto: Reprodução.

Muito surfista aproveitam as ondas de Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio, para treinar e se aprimorar. Ondas fortes, tubulares, de valas e etc. Um dos atletas mais sucedidos do país, Eric Ribiere, saiu das ondas do Cabo e levou toda a sua experiência com as ondas da cidade para surfar as melhores ondas do mundo e entrar no WCT, em 2004. Eric, atualmente, mora na Espanha e tem dupla cidadania: francesa e brasileira; sendo franco-brasileiro. Se aprimorou nas ondas grandes e se destaca no Circuito Mundial de Ondas Grandes, participando na última edição, inclusive, pela França. O cabista tem um vasto currículo, sendo multi-campeão no velho continente: 2x campeão europeu profissional, campeão europeu amador, campeão da Irlanda de ondas grandes, maior campeão da Irlanda do xxl. 4x campeão espanhol e 5x campeão da Galiza. O big surfer conversou com o Blog Cutback e contou sobre patrocínio, transição para as ondas grandes, homenagem ao Léo Neves e mais. Confira!

Ribiere dropando uma bomba em Nazaré. Foto: Reprodução

Cutback: Como foi a transição do freesurf/competição para o surf de ondas gigantes?

Eric: A transição para as ondas grandes veio um pouco naturalmente porque todos os surfistas têm que competir no Havaí e em algum momento tem que começar a gostar das ondas grandes. Então, comecei a fazer bastante resultado no Havaí e gostar cada vez mais [das ondas grandes]. Até que fiquei em uma casa que todos os surfistas profissionais surfavam no Waimea, que era o lugar com as maiores ondas e comprei uma prancha e comecei a surfar nas ondas grandes com eles [os surfistas]. E quando decidi parar o circuito [mundial], eu não fui direto para as ondas grandes, comecei a procurar ondas tubulares, slabs... Pouco a pouco fui fazendo as duas coisas, e quando começou Nazaré, eu já estava no free surf e morava do lado de Nazaré, em Ericeira [Portugal] e desde então sigo indo para Nazaré. Tem fase da temporada em que eu piloto [jet ski] mais que surfo, nas últimas eu tive pilotando mais do que surfava. Essa temporada foi a que eu surfei um pouco mais, que participei esse ano do mundial de ondas gigantes representando a França e eu acho que tudo vem lá de trás mesmo, do Havaí. Se não gosta das ondas grandes do Havaí, não tem como ser surfistas e nem competidor.

Um aéreo de front. Foto: Reprodução

Cutback: Por ter morado em Arraial do Cabo e ter treinado a maior parte nas ondas da cidade o ajudou a desenvolver o seu surf?

Eric: É, Arraial tem uma variedade de ondas muito boa, tem ondas longas, tem ondas sem força, onda de vento, ondas tubulares e então acho que acaba fazendo o surfista aprimorar técnicas em várias condições diferentes. Depois eu comecei a viajar muito cedo. Com 15, 16 já estava indo para todos os lugares e com 18 já estava no circuito mundial. Acho que com 18, já tinha ganho uma etapa na Argentina. Então, eu comecei a sair do Arraial muito cedo também, fui para o Havaí a primeira vez com 18.

O bom do Arraial, até hoje em dia, é que tem pouca gente surfando, então acaba sobrando muita onda, sobretudo quando o mar subia. Na maioria das vezes eu estava sozinho ou com poucos amigos, então da para treinar muito. A cidade é pequena também, então faz poucos quilômetros, muitas vezes você vai surfar a pé. Porque acaba dando uma preparação física boa. Na época não me ligava nisso, mas você caminhar muito é realmente uma das melhores preparações que tem, caminhar não traz impacto para os joelhos, não prejudica nenhuma articulação e você caminhar horas e horas durante o dia é melhor que muitas outras preparações físicas.

Cutback: Como é a diferença de busca de patrocínios na Europa e no Brasil?

Eric: Foi a questão do porque eu saí do Brasil. Eu queria ser surfista profissional, os meus patrocinadores não estavam me acompanhando e eu vim atrás da minha carreira profissional, fiz a carreira praticamente toda aqui na Europa, tive muitos bons patrocinadores e eu sigo competindo no circuito de ondas grandes, mas não tenho patrocinadores. Agora quem me manda para os campeonatos é a minha empresa, eu me “autopatrocino”. Eu ainda tenho alguns objetivos profissionais, gostaria muito de surfar umas ondas gigantes aqui onde eu moro. Na Galícia, tem alguns picos inexplorados, com ondas realmente grandes, eu acho que esse novo conteúdo pode trazer novos patrocinadores. O que mudou muito da época para agora é que tem muito patrocinador fora das marcas de surf do que antes, essa é uma grande diferença. Eu acho que na época que eu saí para Europa o patrocínio apoiava muito mais. Hoje em dia já não acho tanto, hoje em dia acho que o mundo inteiro está numa quebra total de patrocinadores, a grande diferença é isso. Aqui [Espanha] ainda se consegue alguns patrocinadores fora do meio do surf.

Voandoooo! Foto: Reprodução

Cutback: Como foi a experiência de fazer parte da elite do WCT? Eric: O WCT realmente tem vários campeonatos incríveis, ondas perfeitas e paradisíacas. Eu acho que tinha que ter ficado mais um ou dois anos para me acostumar com cada lugar e fazer pranchas novas e disputar de igual para igual com todo mundo, eu só consegui ficar um ano e quase consegui me classificar pelo WQS. Quase me classifiquei no ano seguinte e depois eu desisti, um ou dois anos depois eu desisti e comecei a entrar para o free Surf e do free surf para ondas grandes. Mas igual o WCT para surfar ondas boas e melhorar o surf não tem, você vê os caras arrepiando naquelas ondas, aumenta muito seu nível de surf.

Cutback: Em quanto tempo percebeu estar sendo valorizado em sua nova empreitada profissional no exterior?

Eric: Eu aqui no exterior consegui alguns títulos muito rápido e consegui patrocínio muito rápido. Cheguei uns anos depois a ser o primeiro francês a entrar no WCT, então foi tudo muito rápido. Tudo foi muito rápido para conseguir patrocínio, para todos me aceitarem, mas acho que sendo franco/brasileiro tinha um pouco de pé atrás em relação a patrocínios, não é como se eu fosse um cara nascido e criado na França que tivesse entrado, por exemplo. O que é estranho, porque o outo francês que entrou depois de mim é metade marroquino e ele não sofreu tanto essa descaracterização de quem não era da França como eu. Ele também chegou um pouquinho antes na França, eu cheguei com 18 e ele com 13, 14, mas não sei. As próximas gerações que vieram depois da gente dão muito mais valor para gente que abriu as portas do que na época .

Cutback: Atualmente você mora fora do país. Mas você pensa em voltar para o Brasil em algum momento?

Eric: Eu já anunciei que pouco a pouco vou ficar mais tempo no Arraial do Cabo, umas das coisas que eu queria fazer é ficar mais tempo em casa, onde eu cresci. A minha família já sabe disso, provavelmente meus amigos já devem saber, porque cidade pequena a fofoca corre rápido [risos]. Mas a ideia é essa, pouco a pouco passar um mês, dois meses, e pouco a pouco ir voltando. Vai ser difícil de deixar a Europa, porque realmente aqui o verão europeu é o que mais me dá sustento, então eu tenho a ideia de passar três, quatro meses na Europa, fazer um bom verão europeu, depois passar um tempo no Brasil, sem precisar trabalhar, sem preocupar em ganhar dinheiro no Brasil que eu sei que não é tão fácil.

Cutback: O que tem feito na quarentena? Aproveitando pra ficar com a família, surfando..?

Eric: Essa quarentena foi um dos momentos mais difíceis e um dos melhores momentos da minha vida. Mais difícil porque até hoje não vi meus filhos, estou quase três meses sem ver meus filhos, estou com um problema sério com a mãe das minhas crianças.

E por outro lado comecei a escrever um livro, é realmente uma narrativa que, olhando assim, parece uma narrativa meio biográfica, mas vai ser meio que uma narração fictícia com bases de relatos do Léo Neves, do João Gutemberg, meus e de outras pessoas que estavam comigo na época do circuito. Muito mais do Léo claro, coisa que ele falava e eu decidi escrever um livro também em homenagem a ele. e vão ter muitas coisas que não são da vida dele, claro. Então é uma narração que nem poderia ser da vida dele, algumas coisas são, mas é uma obra que vou dedicar pra ele.

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