Arte, música e surf: Caio Teixeira lança sua marca com produtos exclusivos

Por Lucas D'Assumpção / Samantha Orige

Caio com seu estilaço em Cabo Frio. Foto: Ditadi

Quando o assunto é longboard vem logo à mente um surfista de mais idade em uma linha clássica nas ondas. Por muito tempo essa afirmação foi correta, mas nos dias atuais o long não é mais "só" de experientes. Muitos surfistas mais novos estão desfilando suas 9 pés nas ondas. E o estilo clássico, continua? Sim, mas a agressividade também entrou no meio dos longs.


E tem um brasileiro, local de Cabo Frio, que consegue fazer um mix: agressividade, clássico, fluidez... uma junção perfeita, quase que uma dança. Caio Teixeira, nascido em meio as pranchas dos anos 50, 60, se encontrou no meio do old school. Toda essa experiência do clássico com o novo fez Caio iniciar a sua própria marca, com fabricação de pranchas.


Com a crescente das pranchas, Caio - que agora, além de surfista é empreendedor -, criou diversos produtos. Recentemente nasceu o site caioteixeira.net. O Blog Cutback conversou com o Caio e o longboarder explicou todo o processo de criação desde as suas referências de artes até o inicio do site. Confira! Cutback: Vendo as suas pranchas, da para perceber que você faz verdadeiras "obras de artes". Que tipo de influencia artística te ajudam na hora da criação?


Caio: Acho que de influência artística, é eu acho que os grandes shapers dos anos 50 e 60, esses sim foram os verdadeiros artistas. Acho que pra referência do surf, eu acho que esses caras que deram um ponta pé inicial de começar a desenvolver modelos de pranchas, e cores e descobrir pigmentos e técnicas, esses caras são em quem eu me espelho. Eu tenho feito as minhas pranchas com total influência dessa galera dos anos dourados do surf, ali. E eu tenho tentado colocar um pouquinho dessa essência, desses clássicos, dos melhores que tivemos (risos). é difícil falar sobre isso. Eu gosto de trabalhar mais no minimalismo, minhas pranchas geralmente eu não tenho muita coisa, muita informação. Eu acabo sempre dando um toque mais clean, mais sutil, uma pegada mais limpa, digamos. Não trabalho com muita informação. as Pranchas normalmente tem um ou dois tons, então acho que isso vem criado um diferencial. E, sei lá, acho que é mais ou menos isso.

Dia da sala de shape. Foto: Tinoco

Cutback: Em seus vídeos das sessions de surf sempre rola aquele mix: música, arte e radicalidade. Isso vem desde sempre? Isso faz parte também do seu processo de criação?


Caio: Então, é, a gente tenta trabalhar um pouco da brasilidade. A gente sabe que o surf é um esporte, o próprio nome surf, é de um esporte que veio do exterior, tipo, sua essência está ali no Havaí, na Califórnia, mas a gente tenta trabalhar um pouco da brasilidade, da nossa essência, um pouquinho do nosso borogodó, eu acho que isso faz com que a gente crie o nosso próprio jeitinho. O lado bom do jeitinho brasileiro. E assim, eu gosto muito de toda vez que eu vou fazer uma prancha eu tá ouvindo uma boa música, de preferência uma MPB, um swuingão, um negócio bem legal, eu acho que isso volta como energia pra prancha durante todo o processo de criação e acho que no final ela fica uma prancha bem boa, porque foi colocada muita energia positiva e boa durante todo o processo de criação dela.


Cutback: Ser criado no meio dos longs e relíquias o fez ir para o lado clássico do surf? Porque a gente sempre acha que os mais velhos que gostam de longboard.


Caio: Sim! Com certeza. Ser criado ali no meio das pranchas clássicas me fez ser quem eu sou. Essa coisa de achar que o longboard é coisa de mais velho, isso a gente vem quebrando nos últimos anos e tem uma galera muito boa jovem que tá quebrando, surfando demais, até porque isso é um estigma que foi criado em meados dos anos 70/80 onde longboard era uma coisa pra velho. Mas a gente tá quebrando tudo isso e mostrando que tem pessoas muito jovens que estão vindo com uma essência e uma visão diferente transformando o longboard e levando né pra outro patamar E transformando assim eu acho que toda essa coisa que foi criada a um tempo atrás de longboard pra velho mudou bastante, tem mudado a cada dia.

Fotos da coleção. Foto: Natasha Hermes

Cutback: Os desenhos das suas peças de roupa são únicas e demonstram a sua vibe. Os traços são seus? Como foi desenvolvido? Você consegue traçar um caminho para ter esse resultado tão "ímpar", tão "particular"?


Caio: Eu desenho, mas acho que pra isso eu resolvi mudar um pouco assim. Eu contratei um brother, que é o Fábio Luiz, que é um designer lá do sul, é um excelente designer por sinal. E eu venho acompanhando o trabalho dele há um tempo e ele já acompanhava o meu. Aí a gente trocando uma ideia eu resolvi fazer o convite pra ele desenhar essa primeira coleção das camisas, e como ele já conhecia tudo que eu fazia, as pranchas o meu dia a dia ali, eu deixei meio que na mão dele.


Eu falei o que eu queria, e eu acho que deu super certo assim, ele conseguiu pescar bem assim. E eu acho, acho não tenho certeza que ele tem ideia tipo do meu feeling de trabalho e acho que isso fez com que a coleção ficasse tão legal e coma nossa cara assim, acho que é isso Acho que valeu demais assim e a gente já tá programando pra fazer uma próxima


Cutback: Como surgiu a ideia do site? É uma forma de alcançar mais pessoas com o seu trabalho?


Caio: Então, na verdade o site a gente já está há um tempo trabalhando, acho que super encaixou o 'timing' certo de o site sair nesse momento. Acho que foram alguns anos da gente trabalhando, criando conteúdo, e até dado identidade pra marca, melhorando a identidade da marca e a gente queria fazer não só o site com as pranchas mas também com os produtos, com as camisetas, com caneca, com quilha. E a gente tá vendo mais outras coisas aí, tem umas ecobags, a gente já tá com uns produtos novos que estão pra sair por agora. Então o foco é continuar trabalhando.


Cutback: De onde surgiu a ideias das pranchas e das roupas? Foi um projeto pensado?


Caio: Cara, (risos) a ideia das pranchas é porque assim, é muito antigo, eu já tô nisso há muitos anos. Eu cresci visitando oficina, e dentro de fábrica, então meio que pra mim veio como dia dia, veio com o tempo, não consigo nem dizer que foi algo pensado, sabe? Realmente isso, todas as influências que eu tive quando criança, de estar ali envolvido com o museu, frequentando as oficinas e aprendendo, eu fui atleta mais jovem, e eu frequentava as salas de shape, eu tinha curiosidade.


Aprendi muito com o Mudinho. Carlos Mudinho que é uma lenda para o surf, ele me ajudou muito. O Tio Joca, que é o cara da Marola Surf Board, foi ele de fato que me ensinou a mexer numa plaina, que me ensinou tudo, cara. Me falava o que era resina, catalisador, monômero, deixava a gente pintar as pranchas, ele de fato foi o cara que me colocou ali pra fazer alguma coisa dentro de uma fábrica, que me deu a liberdade pra mexer e fazer e pintar e ralar um bloco.


Ele foi um cara que devo muito a ele. E nossa, então... meio que as coisas só foram acontecendo com o tempo e eu estou falando de, sei lá, mais de 20 anos atrás quando eu tive contato com tudo isso e eu acho que hoje é apenas fruto do que vivi quando mais jovem. E em relação as roupas é aquela vontade que você sempre tem. De ter alguma coisa, é de surf, e hoje assim, ser um empresário, eu não gosto nem dessa palavra ser um empresário.


Mas acho que ser um empreendedor hoje em dia no Brasil não é muito fácil, a gente tem um país que não ajuda muito quem quer empreender, existem milhares de taxas, mas enfim... a gente vem lutando com tudo isso pra fazer a empresa crescer. A gente está tentando trabalhar com o máximo da nossa essência para fazer uma coisa bem legal, com bastante brasilidade.

A arte do Caio Teixeira. Foto: Divulgação


Cutback: A gente falou do estilo clássico do seu trabalho, da sua influência artística e um pouco do que você escuta quando está criando, e agora eu quero saber a motivação pessoal. Quando você parou e pensou: "pô, é isso!". Conta um pouco sobre o Caio no meio de todo esse trabalho.


Caio: Cara, que pergunta difícil. Deixa eu pensar. Então, o dia que eu falei, parei, pensei e falei "é isso" foram várias vezes que eu pensei isso, porque eu acho que tive oportunidade, eu tive diversas, como eu posso falar? Difícil pra cara%$* responder essa. Mas eu tive muitos amigos, eu tive muitas viagens, eu tive muitos festivais que eu participei, que eu estava junto, que eu vi minhas pranchas andando, que eu vi na mão de pessoas, e pessoas surfando e feedback que eu fui ouvindo. E assim, eu acho que a cada dia que passa a gente ganha um pouquinho mais. Tipo, quando a gente recebe um bom feedback, uma boa mensagem de um cliente satisfeito, hoje uma pessoa que viu a prancha passando achou linda e mandou mensagem. Eu acho que são coisas, pequenas coisas, pequenas atitudes que você vai recebendo no dia a dia e vai ficando amarradão. E ai, pô, quando alguém pega a camisa que recebeu, posta foto feliz da vida e marca a gente. São essas coisas assim, sabe? Acho que não tá em uma só coisa, são várias coisas. E acho que dentre elas acho que esse, ter a resposta das pessoas, o gesto, o carinho que as pessoas tem com a marca, de querer usar, de querer postar, de querer fazer o negócio realmente acontecer, sabe? Acho que é mais isso. Então toda vez que eu falo "cara, é isso! eu gosto do que eu faço". Estou muito feliz mesmo, eu faço prancha pra pessoas incríveis como a Jasmim Avelino, o Guedes, são pessoas que eu curto demais, o Japa, a Marina, tem uma galera muito boa, fica até ruim mencionar nome, mas é isso. Eu acho que é isso.