Dibob relembra sua ligação com o surfe e o auge do hardcore no Brasil


Dedeco, Miguel, Gesta e Faucom. Foto: Divulgação

A música e o surf sempre andaram lado a lado e um gênero musical que marcou uma geração dos anos 2000 foi o hardcore melódico. E uma banda que respirou o esporte desde sua fundação foi o Dibob, grupo nostálgico para adolescentes dos anos 2000. Dedeco, Miguel, Gesta e Faucom conseguiram levar a vida e o life style surfista para a cena do "rock de garagem".


Dentro de suas principais influências o punk rock rápido e bem humorado das bandas californianas. O cotidiano dos quatro integrantes da banda e de seus amigos quase sem querer invadiam a temática de suas letras, sendo a principal fonte de motivação e inspiração.


A banda tinha tanto apelo dentro do surf que uma grande marca do surfwear patrocinou o Dibob por um bom período. Uma das suas músicas, a "1x0 Eu" contou com a participação do surfista profissional Marcelo Trekinho, que de certa forma motivou uma galera a começar no surf.


Com a volta da cena, o Blog Cutback conversou com o Faucom, baterista da banda. O músico contou detalhes do Dibob, planos para o futuro, da paixão dos integrantes pelo surf e mais. Confira!


Cutback: Conversando com uma galera que curtia a banda, muitos relataram a "vibe surfe" de vocês. Por serem do Rio de Janeiro, a banda já foi criada com esse intuito?


Faucom: A gente meio que se conheceu na praia. Todo mundo da banda já surfava, inclusive cresceu junto com grandes ídolos do surf carioca e brasileiro. Todos surfavam no pontão do Leblon. Acho que não teve o intuito de criar uma banda vibe surf. É uma coisa verdadeira, a gente é aquilo e acabou transferindo pro som, porque era o nosso dia-a-dia.

Todos do Dibob são locais do Pontão do Leblon. Foto: Divulgação

Cutback: O hardcore era visto como uma linha mais de skate, mas as bandas do Rio criaram o "riocore" numa linha mais praia e etc. Foi uma cena pensada? Veio naturalmente?


Faucom: O hardcore tinha uma grande associoação com o skate, mas, nos anos 90, como éramos muito fãs de surf e acompanhávamos esse universo, tinham muitos filmes produzidos, principalmente pelo Taylor Steele, que traziam na trilha sonora bandas como Bad Religion, NOFX, Face to Face... bandas do estilo hardcore melódico e demos uma pirada com isso.


A gente via aqueles caras surfando... Kelly Slater, Rob Machado, C.J. Hobgood, Taj Burrow, Andy, Bruce Irons, Joel Parkinson, Tom Carroll... todos os surfistas mais das antigas surfando com aquela trilha sonora. Então, a gente meio que tinha um lance desse hardcore melódico e pop punk que estavam muito em voga nos filmes que eram produzidos. A gente ouvia isso através desses filmes.


Virou muita influência para a gente. O engraçado é que esse termo 'rio core', fomos rotulados, mas muito depois de ter criado a cena toda, das bandas já terem assinado com gravadoras... depois que realmente a cena se consolidou que intitularam assim, mas nasceu com cada banda fazendo seu corre. A gente começou a tocar nos mesmos palcos de underground, ia se esbarrando, se conhecendo e a cena se fortificando. Foram bons tempos.


É uma cena que aconteceu naturalmente, não foi nada pensado. Tanto que o termo foi aplicado depois que a cena existiu e não quando foi sendo criada.


Gesta em ação na Costa Rica. Foto: Divulgação

Cutback: No clipe "1x0 Eu" o surfista profissional Marcelo Trekinho participa. E por conta desse clipe muita gente começou a surfar. Você tem noção do quanto essa música influenciou uma geração?


Faucom: Isso foi uma loucura. A gente estava com um contrato com uma gravadora e tínhamos um orçamento para fazer uma superprodução. Um set inteiro para fazer um clipe que a gente fez em um dia, gravou em várias locações no Rio e a última cena era no Pontão do Leblon. Durante uma das reuniões com o diretor do clipe, ele era muito fã do Marcelo Trekinho, e sabia que a gente também era.


Então ele queria colocar o Marcelo surfando no clipe e a ideia dele era que o personagem que conduzia a história do clipe, no final, surfasse com uma capa de super herói. E foi uma loucura surfar com aquela roupa no mar do jeito que estava. Fiquei de cara em ver o Trekinho. Sei que ele é um surfista absurdo, mas foi muito inacreditável.


E o lance de ter influenciado muita gente a surfar é engraçado. Sempre vejo o Dibob nascendo como uma célula de várias pessoas, tanto dos amigos que faziam parte, com movimento cultural com marca de roupa, filmes, videomaker... várias células que agitaram culturalmente esse universo, principalmente do surf.


Foi um movimento da galera do surf. Posso dizer que o Dibob, das bandas do 'rio core', era a que tinha mais ligação com o surf, que andava mais com essa galera. Tenho muita certeza que a gente influenciou muita gente a surfar, mas tenho certeza que era um movimento que ficava cada vez mais forte aqui no Rio de Janeiro. Notávamos a garotada chegando na praia para o surf cada vez mais nova. Tenho como exemplo meu irmão que começou a surfar comigo e hoje é big rider.


Cutback: Os integrantes da banda surfam?


Faucom: Todos surfam. Apesar de que faz um tempo que estou afastado das ondas... Ficando adulto, tendo mais responsabilidades, tendo filho, morando mais longe do mar... Eu tenho que assumir que eu era o menos surfista da banda. Mas sempre fui apaixonado por surf também. Já fiz uma viagem para o Havaí que recomendo para qualquer surfista, mesmo que você não surfe bem, indo para o Havaí ou lugar que tenham ondas que te ajudem a surfar melhor, vale a pena porque é uma evolução.

O surf envolve a vida do Dibob. Foto: Divulgação

Cutback: O hardcore/emo está ficando em voga novamente e o Dibob é uma das mais influentes da cena. Vocês pretendem voltar com a banda?


Faucom: Tá rolando esse movimento, parece que é meio cíclico, mas se for pensar, não é tanta coincidência. Esse ano, o Dibob faz 20 anos de banda. A galera vai ficando mais velha e as músicas que fizeram parte de uma geração ficam nostálgicas e remetem às pessoas os momentos de novo. Sempre revisito as músicas da minha adolescência e isso traz uma sensação muito boa.


Em relação a voltar com a banda, hoje em dia cada um tem seu corre individual, mas estamos sempre se falando, temos planos com o Dibob. Posso até dizer que esse ano, com os 20 anos, estaremos fazendo umas ações a partir de maio, vamos lançar um disco que ainda não estava nas plataformas digitais, o A Ópera do Cafajeste, também o 1° EP que é O Markebra e também um single que lançamos na internet da vida há uma década que não foi usado e lançado. Aproveitando isso, temos planos de gravar um EP com músicas novas, que a gente tá compondo.


Voltar a banda como era naquela época é muito difícil, até por conta da linha do tempo. Hoje temos 40 anos de idade, já não temos mais aquela energia para tocar uma banda. Temos o Dibob como um tesouro nosso que a gente cuida e usa como se fosse uma joia para uma ocasião especial, para a gente se divertir, estar junto. Mas estamos na ativa de uma certa forma. Não sei nem se voltar com a banda é o termo certo, porque nunca terminamos a banda. Mas estar junto todo dia, ensaiando todo dia, compondo todo dia, não é mais a onda do Dibob. Porém estamos aí com muita vontade de lançar esses materiais novos e ver o que a galera vai achar. Tomara que curtam.


Cutback: Agora falando como um todo: você tem noção do tamanho da banda para uma geração?


Faucom: Eu tenho noção de que a gente conseguiu tocar em muito lugar: rádio, tv... fazer muito show. Tivemos no início um trabalho de formiguinha, até conseguir a gravadora e com o trabalho do público que impulsionava o Dibob. Sem essas pessoas não seria possível.


Mas a noção é difícil de ter quando se está dentro do negócio. Aquilo tudo quando você entra em um show, como o Coca-Cola Vibezone, na Cidade do Rock, parece que é um sonho. É uma coisa que a gente não para pra pensar muito e às vezes não se dá conta.


Quando alguém chega pra mim e fala "po, a banda mudou a minha vida", eu fico "que isso cara". A gente sabe o poder que a música tem, mas não me deslumbro com isso. É uma coisa que a gente fazia com tanta verdade e tanto amor, com a nossa amizade de estar lá junto, tentando tocar músicas parecidas com as que a gente escutava... conseguir concretizar uma música era um orgulho. Nunca nos preocupamos no que isso causaria nos outros, fazíamos muito pra gente. Sempre sou pego de surpresa. Fico muito feliz. A gente sempre quis distrair a galera, quando tivessem ouvindo Dibob que estivessem em um lugar legal.


Cutback: Para finalizar. No início do mp3 a galera baixava as músicas e uma dela, a "7x1 Eu Não Sou Seu", da banda Off-line, vinha com o nome do Dibob. Você sabe dessa curiosidade? Algumas pessoas ainda acham que a música é de vocês.


Faucom: Essa época do MP3 era muito louca. Tinham várias bandas que você baixava a música mas nunca sabia qual era a banda. Foi uma zona nesse inicio da mudança da indústria, a partir daí que o negócio bagunçou, mas agora parece estar organizando. Tinha uma banda que confundiu muito, que chamava Tô Dibob, que a galera dava uma confundida. Rolavam várias paradas assim. Era engraçado, mas uma troca de cultura.

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