Forfun relembra ligação com o surfe e show histórico em etapa do WCT

Por Lucas D'Assumpção / Samantha Orige

Danilo, Nicolas, Vitor e Rodrigo. Foto: Divulgação

A linha musical dentro do surf foi muito grande nos anos 2000, principalmente com as bandas do "riocore" que levavam o esporte para dentro da cena do rock nacional. Letras falando das praias, do fim de tarde, de olhar o mar, ficaram eternizadas pela banda Forfun, umas das maiores da geração 2000.

Criado em 2001, o Forfun foi uma das bandas mais populares do hardcore brasileiro. À época as guitarras voltaram a frequentar as rádios mais populares, ancoradas no sucesso gringo do emo punk: baixo, guitarra e bateria em andamentos acelerados e vocais melódicos e alongados. Com quatro álbuns de estúdio – Teoria Dinâmica Gastativa, Polisenso, Alegria Compartilhada e Nu – e um álbum ao vivo, o grupo permaneceu em atividade por 14 anos (2001 a 2015).


No comunicado oficial do término da banda, Danilo, Rodrigo, Vitor e Nicolas resumiram a trajetória do Forfun: 700 shows (em 21 estados e 130 cidades pelo país). Um dos shows foi em uma etapa do WCT, em 2014, na Barra da Tijuca. O quarteto sempre foi ligado ao mar, tendo o surf e bodyboard como estilo de vida. Com eminente volta da cena hardcore, o Blog Cutback conversou com o Vitor Isensee, guitarrista da banda. O músico contou detalhes do Forfun, planos para o futuro, da paixão dos integrantes pelo mar e mais. Confira! Cutback: Vocês foram tão grandes na cena do hardcore que ficou entre o mainstream e o underground. Como foi o desenrolar disso, vocês já teriam uma ideia que seria assim? Foi natural? Vitor: É, de certa forma acho que o Forfun sempre foi alternativo demais pro mainstream e ao mesmo tempo popular demais pro underground, então a gente ficou ali num meio termo. Muita coisa rolou de rádio e televisão, mas também muitas coisas poderiam ter rolado e não rolaram, justamente por a gente ser uma banda, um projeto um pouco difícil de rotular também, e por isso, acho que era um pouco alternativo demais pro mainstream e popular demais pro underground. Mas a gente com sinceridade não estava realmente muito preocupado com isso na época, a coisa era muito espontânea, muito mais a vontade de fazer, que a gente acreditava. Foi natural, por isso foi natural. Depois tem uma coisa também que eu acho que é importante que eu acho que é o advento da internet né, a banda surge junto com várias outras bandas aqui no rio: Dibob, scracho, asterisco zero, emoponto, e no Brasil também várias outras bandas contemporâneas: Nx zero, Fresno, Rancore, Sugar Kane, enfim, da para citar várias e várias aqui, mas nesse cenário da primeira leva das bandas que artista que pegaram esse impulso da internet, então acho que de lá pra casa surgiu uma coisa, eu já ouvi esse termo, acho que é um termo interessante, que é o meiostream, né (risos). Não é nem meanstream nem undergroud, então você fica ali entre uma coisa e outra. E existe muitos artistas hoje que transitam por esse meio, tem seu público, tem seu nicho, antes da pandemia fazia seus show, enfim, tem ali uma base de público forte e sólida, mas é grande demais pro underground mas também não tá no mainstream.

A banda agradece ao público após um show. Foto: Rafael Strabelli

Cutback: Essa vibe "praia" da banda foi uma questão que levou as músicas a se aproximarem dos surf. Isso foi pensado?


Vitor: É, eu diria que foi um pouco intuitivo, quer dizer pensado na medida que a gente sentava pra criar as músicas e fazer as letras esse universo tava presente né. Sempre teve uma relação muito forte com o mar, tanto através do surf e bodyboard quanto, enfim, como frequentadores de praia mesmo. Altinha, futevôlei, gamão, fim de tarde, enfim, são coisas que fizeram e fazem parte do nosso universo cultura. Então acho que isso se traduzia nas músicas, né, a gente tava ali cantando aquela vivência e enfim, era uma coisa pensada na medida que pô, vamos escrever vamos criar, e esses temas e esses assuntos já vinham naturalmente, e intuitivo e espontâneo na medida que enfim, não tinha muito como ser de outro jeito.


Cutback: O hardcore foi muito ligado ao skate e vocês conseguiram trazer o surf para a cena. O quão isso foi importante?


Vitor: Bom, eu acho que de certa forma é o estilo musical que tem muito a ver, eu diria que a principal ligação é pela energia. Eu me lembro de ouvir NOFX, The Offsprings... quando eu tinha ali meu 16, 17 anos e aquilo ser uma trilha perfeita pra ir surfar na Joatinga ou pra ir da um role no skatepark do Flamengo, era um tipo de som quem me instigava, em termos, assim, de energia, pela velocidade, pelo, enfim, pelo ímpeto. Então acho que é natural. O Forfun só ajudou ali a fazer esse link do surf com esse estilo musical né, o hardcore melódico, o punk rock. Mas eu acho que isso já vem bem de antes e de certa forma a gente trouxe isso aqui numa versão brasileira, porque se a gente for parar pra pensar já era um movimento bem forte na costa oeste dos EUA, na Califórnia mais especificamente, na Austrália também, e até em outros lugares, se a gente pegar, pó, até na Suécia. Uma banda que a gente gostava muito, Millencolin, muita ligação com o skate. Com o surf não, porque acho que não tem nem muito como praticar surf lá, mas enfim, na medida são esportes irmãos, essa ligação cultural existe né, com o tipo de som. Então acho que a gente ajudou a fazer esse link, né. Agora a importância é difícil mensurar né, é difícil mensurar. Acho que várias bandas contribuíram pra isso e acho que a grande importância é que se transformou numa linguagem ali, numa linguagem de uma geração. O hardcore melódico, o punk rock, as vezes um conteúdo mais espontâneo e descompromissado, às vezes com um conteúdo mais crítico, e até político, mas trazendo essa referência musical e também cultural pra galera que praticava o surfe, que pratica o surfe, enfim, o bodyboard, e skimboard, o skate, e todas as suas variantes né.

Cutback: O "Riocore" foi um termo muito usado para bandas do RJ. Essa cena foi planejada?

Vitor: Cara, então, o termo Riocore ele surge pela primeira vez, eu tenho praticamente certeza disso, até que apareça algo que prove o contrário (risos), mas ele surge pela primeira vez nos posts do Fotolog do Forfun, era uma forma da gente tentar definir o tipo de som que a gente estava querendo fazer e tentando fazer, e isso depois se estendeu pras outras bandas da cena do rio, que realmente se diferenciavam esteticamente das bandas que tavam rolando na época, se assemelhavam em vários sentidos mas se diferenciavam pelo sotaque, pelos temas. A gente surgiu numa época, depois do hardcore o emocore veio muito forte e a gente destoava nas temáticas, nas letras, era um lance em geral mais descontraído né, digamos assim. E a gente começou a postar esse termo, Riocore, meio sem pretensão, sem imaginar. E eu lembro que na época ninguém deu muita bola não, e aí depois, muitos anos depois, virou um termo pra se referir às bandas do rio nessa época. Mas foi muito no espontâneo, sabe? Não foi uma coisa planejada, era mais ter uma referência geográfica ali do som.

Vitor pegando a boa. Foto: Murilo Fonseca

Cutback: Os integrantes da banda surfam? Pelos clipes dava para ver a aproximação do esporte.

Vitor: Então, eu surfo, surfo até hoje. O Rodrigo na época também, acho que ele agora tá um pouco mais afastado, mas tem o lifestyle e anda de skate, de long e tal. Então a relação sempre teve né, principalmente eu e Rodrigo. O Danilo, surfava de bodyboard já mais no começo do Forfun, mas sempre um cara muito ligado à praia porque ele é profissional quase de futevôlei, disputa torneio e tudo, e o Nicholas um cara muito da praia também, assim muito ligado ao mar. Não surfava, mas sempre muito ligado ao mar, e eu surfo até hoje, é uma coisa que pra mim é higiene mental, e também o mar é muito presente na minha vida, hoje em dia eu velejo também, a uns três anos eu comecei a velejar. Enfim, sempre teve presente na nossa estética, o nosso universo, sabe?

Cutback: Qual lugar mais inusitado que vocês já tocaram e qual o show mais marcante na história do Forfun?

Vitor: Po, o lugar mais inusitado? Teve muitos né, principalmente no começo, cansamos de tocar em lugar apertado, microfone dando choque, equipamento de som desligando no meio do show, perrengue sempre teve, e mesmo depois né, show é uma parada onde muitos imprevistos acontecem. Mas, tipo, não vou dizer que inusitado, mas foi uma situação inusitada assim, foi inclusive aqui no Rio, cara, uma parada muito marcante e já respondendo a continuação da pergunta, o show mais marcante, pô essa é dificílima de responder, tem muitos assim. Primeira vez no circo voador, os festivais, os principais festivais que a gente participou, show de lançamento de discos, foram muitos mas vou escolher esse que eu vou contar tanto como o mais inusitado , uma situação inusitada, quanto um dos shows mais marcantes que foi muito lá no começo, 2003 eu acho. Foi um show que foi Dibod e Forfun, no casarão amarelo que era um pico que tinha em Copacabana, que tipo assim, literalmente era um salão de uma casa, que chamava casarão amarelo. Era uma casa grande que tinha um salão, e rolava uns shows ali underground, por vários show das bandas da época aqui do Rio de hardcore, enfim, punk rock, era um lugar alternativo e rolou esse show que foi Forfun e Dibob juntos na mesma noite e cara, a parada lotou, ficou abarrotada, e o que foi muito doido, que lembro que marcou muito, marcou por ter sido um show assim que surpreendeu todo mundo, a gente falou "Caraca as bandas também tem público, né maneiro" e o outro lance é que era tanta gente, ficou tão cheio o lugar que o teto pingava, a transpiração da galera foi batendo no teto e condensando né, o teto tava mais frio e o calor da galera dançando e pulando, o teto começou a pingar cara, e pingava em todo mundo, no público, na gente. Maior doideira, esse marcou. Forfun e Dibob no casarão amarelo, 2003.

Forfun no Billabong Rio Pro, em 2014. Foto: AF Rodrigues

Po, teve um show muito marcante pro Forfun também, que aí pô, relacionado ao surf, cara, lembrei agora, não poderia esquecer, que foi quando a gente tocou cara, na etapa do WCT, que rolou lá no postinho, aqui na Barra em 2014, cara. Em 2014 a convite do meu grande amigo Teco Padaratz, mandado um salve para ele aqui. Cara, a geração que abriu os caminhos, na verdade outras abriram antes, mas, po, Teco, Fábio Gouveia, enfim... o Neco também, essa galera é muito importante na história do surf, O Teco fazia a gerência da etapa aqui no Brasil, fez muitos anos e ele convidou a gente para o show, foi um ano que rolou alguns shows. Tinha um palco ao lado do circo armado ali do campeonato e a gente tocou cara, numa das noites do campeonato, numa sexta feira ou sábado assim. Pô, foi muito emocionante tocar pó, na etapa do WCT na praia, ficou 'cheião', foi bonitão o show, foi bem maneiro, então esse aí marcou também, não podia deixar de citar.

Cutback: Vocês têm noção do tamanho da influência que o Forfum teve, e ainda tem, pra uma geração inteira? Como você enxerga isso?

Vitor: Assim, em relação a influência ou a importância, que a banda tem no cenário, em relação a geração e tudo mais, é uma coisa que vira e mexe a gente se dá conta, assim por exemplo, agora no começo do ano o primeiro disco do Forfun, o Teoria Dinâmica Gastativa, chegou às plataformas digitais, era um disco que ainda não estava nas plataformas digitais. E aí na ocasião teve bastante resultado, muita coisa aconteceu, saiu em vários veículos: rolling stones, no UOL, rolou realmente um barulho, digamos assim, trending topics do Twitter, essas coisas. Ai nessas horas a gente se dá conta, né? Do quão influente a obra é. Mas ao mesmo tempo, a gente, enfim, sempre que você tá de dentro né, você não tem tanta noção né. Essa noção é mais quando você recebe um feedback, sei lá. é tipo esse que eu citei do disco chegando nas plataformas, e aí você passa a ter um pouco mais da noção, da importância. Mas ao mesmo tempo é um pouco relativo, sabe. Assim, acho que como banda o Forfun é realmente importante no Brasil, modéstia à parte acho que a gente realmente contribuiu pra cena da música brasileira na primeira década dos anos 2000, e até depois um pouco, por que a banda foi até 2015 né. Mas eu acho que a gente é uma banda, somos quatro artistas, mas é uma banda dentro de um universo que também tem outras bandas e artistas muito importantes, então assim, a gente tem noção mas não tem noção (risos) A verdade é essa.

E só complementando essa pergunta, acho que a gente vive uma época também em que existe muita informação, existe muita gente produzindo coisa boa, existe muita música, existe muita arte acontecendo, então, claro que o Forfun tem a sua importância, mas ao mesmo tempo que você vai encontrar gente que viveu aquela época e que é dessa geração quê: "pô claro, conheço, ouvia ou até pessoas que: "ah, conheço uma ou outra música, conheço mais de nome e tal", tem gente que não ouviu, porque enfim, realmente a gente vive essa época digital da informação, onde tem muita coisa acontecendo, então não é uma unanimidade, mas claro, tem sua importância. E nem teria como ser uma unanimidade, né, impossível.

Cutback: Para finalizar: existe esperanças de um retorno do Forfun ou o ciclo realmente acabou?

Vitor: Olha em relação a isso não sei se é uma questão de esperança ou não, né? A vida dá tantas voltas, o mundo dá tantas voltas, mas se fosse pra dizer hoje, a gente não tem não, pretensão de voltar, não existe essa pretensão, enfim. Cada um tem seus projetos individuais. Eu, meu trabalho solo, o Braza, o Danilo além do Braza também tem o daBossa, o Dubrazilis, são outros projetos dele, o Rodrigo tem a carreira solo dele, enfim, tem o Carranca também que é uma banda que ele montou. O Nicolas, fora a música, também têm outras atividades. Então, realmente, intenção de voltar, acho que não. Acho não, tenho certeza que não, até porque acho que é uma coisa que foi o momento, entendeu? Não faria sentido hoje a gente se reunir para gravar, para fazer coisa nova. Foi uma fase da vida da qual a gente tem muito orgulho. Acho que rendeu e rende frutos. A gente tem maior carinho pela banda, a gente com certeza vai continuar cuidando bem dela. Mas o que a gente tinha pra fazer como Forfun acho que tá feito. Então nesse sentido, hoje a gente não tem nenhuma intenção realmente de voltar com a banda, mas a vida é tão maluca, tanta coisa pode acontecer. Mas não acho também que é o caso de ficar deixando falsas esperanças, ou ficar deixando uma porta aberta para o público, que às vezes se entusiasma e cria expectativas em cima de coisas que não são reais. Então, realmente hoje a gente não tem a intenção de que o Forfun volte a produzir nem nada assim.