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Gustavo Riscado: "fiz uma faculdade para ficar mais tempo no surf"


Gustavo dropando a boa. Foto: Acervo Pessoal

O surf é uma modalidade em que os seus praticantes, muitas das vezes, usam a essência do esporte para criar um estilo de vida. É comum ver alguns surfistas falando: “sou surfista de essência”. Mas ser de essência não quer dizer que você não possa trabalhar com o surf. Muito pelo contrário! O educador físico Gustavo Riscado, é um dos “surfistas de essência” e entrou na faculdade justamente para trabalhar com o esporte.

Gustavo se dedicou e estudou muito para ser um treinador de surf e preparar atletas para as competições, além de julgar alguns campeonatos locais. Gustavo fundou, ao lado do seu amigo Marcos Ramos, o centro de treinamento Top Surf, em Cabo Frio. Surfista desde 1988, Gustavo sempre curtiu a vibe das trips de surf e competiu algumas vezes, mas nunca escondeu gostar mais do free surf. Ao Cutback, o professor revelou tudo sobre a sua trajetória no esporte. Confira!

Cutback: Quando você começou a surfar?

Gustavo: Comecei a surfar em 1988, mas minha mãe me colocava muito pra estudar, então ia muito com meus pais com um bodyboard do meu irmão. Depois minha mãe me deu uma prancha, inclusive de um surfista que era muito conhecido em Cabo Frio na geração do Victor Ribas, o Fernandinho Cariati , uma Ricardo Martins 5’4” quilhas fixas verdes. Lembro como se fosse hoje, depois encomendei uma prancha do shaper Jacaré, comecei porque minha irmã fez um acampamento em Monte Alto [Arraial do Cabo], naquela época poucas casas e estrada de barro, e vi um cara surfando que me fascinou.

Cutback: Alguém te inspirou no início do surf?

Gustavo: Tinha alguns amigos locais que me inspiraram Marcinho Índio, Plínio Ribas esses eram os locais. Mas quem me inspirou mesmo dos gringos foi no momento do filme Focus, Tim Curran, Shane Dorian, Rob Machado, os irmãos Keith Malloy e Cris Malloy, mas minha maior inspiração, não só como surfista e atleta, mas como pessoa é o Kelly Slater. Essência pura do surf.

Cutback: Qual a maior dificuldade que você enfrentou em todo o seu tempo de surf?

Gustavo: Maior dificuldade era meus pais me liberarem totalmente para surfar, pois naquela época o preconceito era forte. Apesar da minha mãe sempre me apoiar, mas era muito restrito de ficar na praia direto, mas hoje agradeço muito terem feito isso, pois não me envolvi em coisas erradas, graças a Deus.

Gustavo no pódio, em uma etapa no Norte Fluminense. Foto: Acervo Pessoal

Cutback: Quando você começou a competir?

Gustavo: Comecei a competir logo que encomendei essa prancha do Jacaré, lembro que Jacaré patrocinava o Erick Rebiere, Noé, André Pessoa e Fredinho de Macaé... época boa. Meu primeiro evento competindo foi um Limão Brahma no Forte, mas era muito cru na competição, depois competi outros locais. Depois conheci Marcos Ramos e Carlos Victor Lotus e nessa época viajamos muito pra Niterói, Campos, Macaé e Rio para competir, mas eu gostei mais daquele estilo de surfista de acampamento, viajar para curtir.

Cutback: Em sua visão, o que falta para os talentos locais irem para frente?

Gustavo: Primeiro o que falta são as pessoas olharem o surf como olham o futebol, acreditar no potencial do esporte como uma grande transformação de mudança de vida em todos os sentidos - espiritual, físico e emocional. Uma pessoa que surfa e experimenta esse verdadeiro ‘remédio’ nunca mais será o mesmo, isso se buscar realmente a verdadeira essência do esporte. Consequentemente os talentos vem de bônus, pois não adianta ter talento sem conhecer a essência do esporte, por isso a grande maioria desiste.

Batida largando a rabeta. Vrauuu. Foto: Divulgação

Cutback: O que te fez virar técnico de surf?

Gustavo: O que me fez ser técnico de surf foi retribuir todo sentido que esse esporte me deu de vida e experiência em um ambiente no qual nunca desejo sair, a não ser que seja a vontade de Deus que é soberano. Mas creio que Deus tem um propósito e eu, o Marcos e outros amigos sempre fizemos pequenos surf treinos desde moleques, por amor. Única coisa que ganhamos são as amizades e momentos eternizados, nenhum dinheiro paga isso, fiz uma faculdade sempre almejando viver mais tempo nesse meio de estilo de vida, fiz minha pós-graduação pensando nisso, meu TCC foi um trabalho relacionado ao surf, onde entrevistei vários atletas no WQS de Saquarema - Filipe Toledo, Miguel Pupo, entre muitos outros. Na época nenhum deles faziam um trabalho específico para o surf e eu já tinha essa visão da necessidade, e investi muito dinheiro em cursos de treinamento funcional que me capacitasse pra que eu vivesse isso hoje, graças a Deus estou no caminho.

Cutback: Qual a importância de um bom trabalho físico e técnico para os atletas?

Gustavo: Assim como qualquer esporte de alto desempenho, o surf exige até mais necessidade de um treinamento paralelo, pois são inúmeras variáveis que existe nesse meio de competição: resistência, potência, equilíbrio concentração. Por isso eu nunca deixo de buscar conhecimento na biomecânica, fisiologia,equilíbrio muscular; meus livros velhos continuam na minha cabeceira da cama, gosto muito de ler e todos os dias me cobro para que Deus me dê discernimento e conhecimento do que deseja de mim na minha profissão.

Lembro de uma frase de um dos coordenadores da minha faculdade “ quando for dormir, lembre que deves dormir com a cabeça tranquila, que não tentou enganar ninguém de treinar e que você sempre deu o seu melhor” guardei aquilo a sete chaves no meu coração, na minha pesquisa vi a necessidade muito grande de atletas de surf para se prepararem, pois com o mar não se brinca, mesmo preparado é difícil, imagina sem treinar.

Cutback: Entender como funciona o julgamento dos juízes do campeonato faz parte do treinamento?

Gustavo: Sim, acredito que todos os atletas deveriam ter o livro de regras na veia, pois só com talento bons surfistas já ficaram para trás por não fazer uma boa tática, estratégia, e é mais fácil culpar o juiz chamando o de ‘ladrão’ do que olhar para si e falar “preciso estudar as regras e treinar mais”.

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