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Marcos Ramos: de competidor a juiz de surf


Marcos mandando a sua batida. Foto Arquivo Pessoal

No fim de toda carreira esportiva sempre vem uma pergunta que muitos não sabem como responder: “e quando for parar de competir, o que vai fazer?”. A maioria dos atletas não faz a mínima ideia do que fazer após a vida de competição. Alguns seguem treinando, outros estudam e ainda tem os que vão por outros caminhos da vida. No surf alguns ex-atletas seguem competindo circuitos menores, outros viram treinadores e até shappers e, uma parcela mínima, roda o mundo como free surfer para alguma marca.

Em Cabo Frio, uma história se destaca. A do surfista Marcos Ramos, que após anos competindo decidiu estudar e virar juiz de surf. O caso ainda é incomum na modalidade, onde uma parcela mínima de profissionais é formada por ex-competidores. Marcos começou julgando eventos menores e foi galgando o seu espaço entre os árbitros, chegando a julgar as triagens de uma etapa do mundial da WSL, em Saquarema.

Junto com o professor de educação física Gustavo Riscado, Marcos fundou a Top Surf no ano de 2009. A Top Surf foi criada para ser um centro de treinamento com foco bo surf competição, além da formação e desenvolvimento de atletas, amadores e profissionais. O projeto busca atuar na parte física, técnica, psicológica e disciplinar. Além dos treinamentos, a Top realiza surf treinos, eventos e circuitos.

O surfista Marcos Ramos conversou com o Blog Cutback sobre o seu começo no surf, a experiência como juíz e muito mais. Confira!

Cutback: Quando você começou a surfar?

Marcos: Comecei a surfar com 10 anos, na Praia do Braga, por influência dos caras da minha rua: Ratt Engo, Creilson, Widson e Duduxa.

Cutback: Alguém te inspirou no início do surf?

Marcos: Dois que me inspiravam eram o Márcio Tatuí do Braga, ele me inspirou bem no ínicio, e o outro que me insprirou foi Tião de Souza, que era destaque nos campeonatos da cidade, quebrava as valas. Ele tava sempre disputando os campeonatos e ganhando, ele foi meu maior incentivador. Quando me pegou pra treinar, a gente começou a treinar e eu evolui no surf e ele já era bem mais velho. Ele já era categoria open e eu tinha ali dez pra onze anos. Ele começou a me levar para os treinos e tudo, foi meu maior incentivador no surf.

Cutback: Qual a maior dificuldade que você enfrentou em todo o seu tempo de surf?

Marcos: Minha maior dificuldade no surf foi quando meus pais se separaram e minha mãe teve que se mudar pra Niterói. Lá era muito difícil para eu treinar, entendeu? E eu tava naquela fase empolgada com campeonato. Então, querendo treinar, querendo evoluir e lá em Niterói eu morava longe da praia. Era novo e não podia muito andar sozinho, tinha que pegar dois ônibus para ir para a praia, ou ir para Itacoatiara ou ir para o Arpoador. Então, tinha que sair da escola, almoçar, pegar dois ônibus que demoravam mais de uma hora e meia para chegar nas praias para poder treinar, entendeu? Então, a maior dificuldade que eu tive: Foi viver um período morando distante da praia, sozinho, sem conhecer ninguém, sem ter muita amizade e isso me dificultou muito os treinos, então eu só conseguia treinar mais aos finais de semana quando eu vinha para Cabo Frio.

Ramos no pódio em um evento em Cabo Frio. Foto: Dado Shaper

Cutback: Quando você começou a competir?

Marcos: Como você falou em todo tempo de surf, vou fazer um relato de mais recentemente, mais recentemente uma lesão crônica que eu tenho no joelho que isso tem me atrapalhado bastante nos últimos dez anos da minha vida de ...

Eu comecei a competir cedo, doze pra treze anos anos, assim eu já competia nos campeonatos locais aqui em Cabo Frio, já me destacava, já ganhava uns campeonatos. Logo assim o Dado Shapper me patrocinou, meu primeiro patrocinador, a primeira pessoa que acreditou no meu talento, entendeu? Sempre me incentivou. Aí eu comecei a correr os campeonatos maiores, naquela época aqui não tinha muita divisão de categorias, entendeu? Sub-10, Sub-12, Sub-14. Era mirim ou já era open. Então competi muito com os maiores assim. Mas depois eu comecei a competir uns campeonatos maiores no Rio, comecei a sair de Cabo Frio, comecei a competir em Niterói, Rio de Janeiro e aí já era dividido por categoria, e aí competi durante muitos anos todos os circuitos do estado do Rio. Em todos os lugares eu competia, ganhei muitos troféus, fiz finais e ganhei campeonatos em várias cidades: Campos, Macaé, Búzios, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Niterói, Rio de Janeiro. Então, muitos troféus já foram para o lixo, mas um monte minha esposa cuida com carinho e guarda de lembrança, de recordação da época que eu competia.

Cutback: Na sua opinião, o que falta para os talentos locais irem para frente?

Marcos com os moleques em um surf treino. Foto: Top Surf

Marcos: Acho que o que falta para os talentos locais irem pra frente, eu acho que é pagar um preço, entendeu? É dedicação mesmo, é difícil você ver o moleque abrir mão de muitas coisas para poder estar treinando. É difícil ver alguém querer acordar 6 da manhã, o mar pequeno meio metrinho, mexido, com vento e o cara lá dentro da água treinando na raça. Então, muita gente hoje reclama de condição. São poucos na cidade que você treinando, se dedicando mesmo porque o surf é difícil para evoluir. Então, se o moleque ficar escolhendo muito o mar, escolhendo muito um mar clássico para treinar a evolução demora. É difícil você ver alguém pagando o preço mesmo, de treinar a parte física. Hoje em dia o surf tem muita molecada boa em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em outras cidades aí, então pra se destacar no surf e desenvolver um talento aqui em Cabo Frio, eu acho que tem que pagar um preço mesmo, tem que se dedicar, treinar, ficar horas dentro d'água, se puder surfar todos os dias em qualquer condição. Abrindo mão de noitada, abrindo mão de festinha, abrindo mão de várias coisas, abrindo mão de outras ocupações para estar ali treinando, entendeu? Então, você não vê isso hoje em Cabo Frio, vê muito pouco na verdade. Você vê em pouquíssimas pessoas, então eu discordo um pouco quando dizem "ah falta patrocínio". Não cara, os patrocinadores e as marcas estão aí, eu tenho certeza que quando surgir um talento, alguém diferenciado, as marcas elas patrocinam. Eu discordo das pessoas que dizem que falta patrocínio, falta na verdade alguém se destacar. Tem poucos, mas quando tem alguém que se destaque as empresas chegam e patrocinam.

Cutback: O que te levou a ser juiz de surf?

Ramos julgando um evento. Foto: Arquivo Pessoal

Marcos: A transição de quando eu parei de competir para virar juiz de surf foi bem natural, porque desde a época que eu competia eu já gostava de conhecer todas as regras, já decorava as regras, eu acompanhava as baterias e quando eu estava esperando a minha bateria nos eventos eu já acompanhava as outras baterias, ficava prestando atenção nas notas que os juízes estavam dando. Enfim, ficava assistindo ali com interesse, então eu sempre gostei. Quando eu fui parando de competir já foi me dando vontade de continuar envolvido nos campeonatos e o primeiro que me deu oportunidade foi Barrel. Barrel foi o primeiro que me deu a oportunidade de ser juiz e eu sou muito grato a ele e sempre me dediquei muito. A partir daí comecei a julgar os campeonatos na região e tal. Fui crescendo em todo o estado, etapas do brasileiro e tudo. Foi uma evolução muito natural, porque eu amava muito aquilo, eu amo muito isso. Então, eu tava fazendo algo que eu gosto, que sempre me interessei em estudar e estar acompanhando. Então essa transição pra julgamento foi muito natural.

Marcos julgando as triagens do Oi Rio Pro, da WSL. Foto: Arquivo Pessoal

Cutback: Sempre dizem que há favorecimento para alguns atletas e tudo mais. Você concorda com isso?

Marcos: Eu discordo, eu acho que o julgamento de surf é uma das coisas mais justas que existem no esporte, entendeu? Porque quando você coloca ali cinco juízes qualificados, fazendo um trabalho com seriedade, é aonde todos ali são qualificados para darem as suas notas.

Então tem o corte da maior e menor nota, entendeu? Já tem o corte da maior e da menor. Eu não acredito em favorecimento de atleta, o juíz julga cor de laycra. Vermelho, branco, enfim ele julga a camiseta, independente do nome que ta surfando ali, entendeu? Muitas pessoas comentam isso, porque não sabem como funciona o trabalho ali em cima do palanque. É claro que eu não posso responder por todos os julgamentos do mundo, mas eu posso te falar uma coisa quando o julgamento é feito com seriedade por profissionais, é eu acho que um dos esportes que existem é o surf. Porque você pega cincos juízes, cada um vai ter uma opinião baseada em regras, então baseado também em comparação onde é feita uma comparação em todas as ondas. Então, eu não acredito nessa questão não.

Cutback: E se um surfista quiser ser árbitro, o que precisa fazer?

Marcos: Acho que para um surfista ser árbitro tem que primeiro gostar muito, se dedicar, gostar, estudar, saber de regras, entedeu? Conhecer e querer virar árbitro porque gosta mesmo. Porque idependente de remuneração, porque a gente sabe que é uma coisa que é justa: o profissional trabalhar e ser remunerado. Mas que o cara tem que querer ser juíz pelo amor que ele tem ali ao surf e pagar um preço também porque muitas pessoas as vezes querem sentar ali no palanque e começar a julgar, mas poucos querem pagar um preço de fazer um estágio durante um ano, dois anos fazendo estágio sem receber nada. Ta ali mesmo aprendendo ou ajudando começando por baixo. "Por baixo" não é a palavra, mas começando em outras funções, né? Como beach marshall, spotter, depois juíz... Então, muitas pessoas já querem começar sentando na cadeira de juíz. Então, o que uma pessoa, um surfista tem que pensar pra virar juíz é isso aí, o cara querer, gostar, amar, estudar, pagar um preço também, entendeu? Para se desonvolver, porque aos poucos a oportunidade ela aparece, entendeu?

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