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"O surf ainda tem muito o que evoluir" - Edinho fala com o Cutback


Além de comentarista, Edinho pega altas ondas. Foto: Acervo pessoal

Uma das atividades mais difíceis do surf competição é, sem dúvida alguma, ser juiz da modalidade. Julgar uma onda, ter a sua visão e dar uma nota para aquilo é um trabalho muito complicado. Muita gente não entende, muita das vezes, o porquê daquela diferença de notas, daqueles décimos. E um dos maiores comentaristas de surf do país, Edison Leite Júnior ou apenas Edinho, bateu um papo com o Blog Cutback sobre o surf competição. O ex-surfista profissional passou por veículos importantes da modalidade, como Fluir e Hardcore, e atualmente é comentarista de surf nos canais ESPN, além de estar no canal Série Ao Fundo. No papo, Edinho contou das dificuldades de se julgar uma onda, da evolução da modalidade, do momento do jornalismo de surf e as suas dificuldades, e mais! Confira!

Edinho em uma transmissão, em Bells. Foto: Acervo Pessoal

Cutback: Você é um dos maiores comentaristas de surf do Brasil. Para chegar ao seu patamar atual houve estudo ou tem muito experiência e vivência no meio?

Edinho: A experiência e a vivência sempre entram nessa equação, já que fica mais fácil você falar sobre algo que você conhece e já viveu e tem experiências para contar e agregar na sua narração ou nos comentários de um evento ou de onda que seja. Isso tudo acabou me ajudando bastante. Na verdade, o que aconteceu que era interessante é que eu sempre gostei de rádio, por exemplo, e já colaborei com muitas rádios na época que não havia nem celular, depois sendo editor de revistas... o fato é que eu ia para os eventos, e no lugar de anotar as coisas, eu gravava. Ou seja: comentava já ali, ao vivo, para depois escrever as matérias e isso foi me dando uma certa entonação, uma maneira de pensar mais rápida sobre as coisas e assim acabei estudando vendo a postura dos comentaristas, como que fala ou não. E claro, como a gente faz isso há muito tempo, fui aprendendo ali com as pessoas da ESPN que me deram essa abertura: Vivian Mesquita, Renata Neto e aí a gente na cabine também vai aprendendo, vai experimentando maneiras diferentes e vai se adequando com o que a gente vai sentindo. E aí chegamos onde estamos hoje.

Cutback: As suas análises, às vezes, vai de encontro ao que os juízes pensam. Os árbitros de surf erram mais que acertam ou é natural não concordar com um julgamento?

Edinho: Interessante esse negócio de analisar e muita gente achar isso de que ‘vai de encontro ao que os juízes pensam’. Na verdade eu to ali como comentarista e eu tenho que tentar fazer com quem está assistindo entenda o que os juízes acharam, porque eles chegaram àquela conclusão, é o que eu sempre tento entender. Queira ou não, por mais experiência que a gente tenha, os juízes - sim - erram como qualquer pessoa erra. Mas eles têm uma visão as vezes muito diferente de quem está torcendo e o meu papel ali não é ser torcedor, é analisar porque os juízes deram aquilo e existem casos - sim - que eu acabo não concordando. Agora é aquela coisa: a gente não está ali para torcer. Então a onda passou, já foi, não tem que ficar ali com a gente reclamando de juiz, nem nada do tipo.

Seria você deixar de narrar as outras coisas que estão acontecendo. A gente está ali para narrar os fatos que estão acontecendo, se tem erro ou não; a gente até pode apontar, agora julgando de todo jeito acaba sendo a sua opinião. Então, não quer dizer muita coisa, não é porque alguém acha que aquela onda é melhor, que ela é melhor. Na verdade, julgar é uma coisa extremamente difícil e que eu acho que nem deveria ser feita em certos momentos.

Como se trata de um campeonato, de um evento, a gente, claro, tenta mostrar quem está assistindo o que os juízes julgaram naquela onda, o que eles entenderam e tentar entender porque que aquela nota saiu daquela maneira, é basicamente o que um atleta também faz, ele depois assiste a própria onda para entender o que os juízes fizeram. Agora, claro que há erros sim. Acontece. São cinco seres humanos ali dando a nota e a coisa as vezes pode sair pelo caminho errado.

Vraaaaau. Foto: Acervo pessoal

Cutback: Em sua opinião, é melhor uma combinação de manobras fracas ou uma forte?

Edinho: Essa pergunta é bem capciosa, já que uma combinação de manobras é sempre mais legal ou uma manobra forte. Depende da manobra e eu acho que tudo isso tem que ser computado com a sua visão do que o mar está proporcionando. Eu lembro bem, por exemplo, de uma nota 10 do Kelly Slater em Bells. Em que mesmo ele, com a gente conversando, ele falou ’essa nota não seria 10 nunca’, a manobra foi incrível; Na época um aéreo rodando, full rotation sem as mãos na borda, ‘no hands’. Mas o que acontece que Bells é uma onda muito extensa, uma onda que proporciona muitas manobras, aí se o cara pega uma onda menor para dar um aéreo daquele e acerta ‘ah, pô, é o melhor aéreo da história’. Não importa! Não importa! Quem mandou ele pegar uma onda pequena e curta? O mar está oferecendo muito mais. Então fica bem difícil você responder essa pergunta se melhor uma combinação de manobras fracas ou uma forte. Depende. Depende muito do que o mar está oferecendo, depende de como essas manobras fracas foram tão fracas assim ou essa forte foi tão forte assim.

Edinho (do centro) em uma gravação. Foto: Acervo pessoal

Cutback: Você sempre trabalhou no meio da comunicação? Como foi a sua chegada no meio?

Edinho: Olha, na verdade... Eu desde sempre gostei de escrever. Então lá no começo dos anos 80, eu já colaborava de vez em quando com alguns jornais, como eu já comentei anteriormente, inclusive, com rádios também. Trazendo resultado de campeonatos ao vivo para Rádio desde um ‘orelhão’. Tendo como retorno o meu carro com rádio ligado ali do lado, era bem engraçado. E aí também, desde o começo da Fluir eu já era colaborador e o que aconteceu é que o Alberto de Carvalho Alves, ‘o Albertinho’, e eu começamos a viajar bastante, Mickey Hoffman também fazia parte também dessa turma. A gente começou a viajar para fazer matérias e isso acabou se tornando meio que uma coisa que não tinha na época, era uma coisa que como chamariam hoje... Free surf. Mas, a gente viajava e arrumava patrocínio para trazer matérias e aí o Alberto e o Mickey Hoffman também. Os dois grandes fotógrafos cuidavam da parte iconográfica e eu escrevia as matérias. Foi assim que eu entrei. Mas, aí depois eu acabei fazendo o caderno SP da revista Hardcore, depois que eu saí da Fluir. Comecei a trabalhar com o pessoal da Hardcore, bem no começo da revista, até me tornar depois editor da Hardcore, fui editor de jornal Nuts também, trabalhei com a revista Vanice. Já fiz tradução de livro do Eddie Aikau, ou seja: eu sempre trabalhei com esse lado de jornalismo ou de escrever com o Surf.

Cutback: Trabalhar com surf, hoje em dia, da mais dor de cabeça ou é mais prazeroso?

Edinho: Olha, acho que hoje em dia a coisa ficou muito legal por um lado, mas a coisa dificultou. Porque tem muita gente, todo mundo hoje se acha especialista, escritor, videomaker ou não sei o que. Então, é muita coisa sendo produzida e nem tudo com qualidade ou com um cuidado realmente literário ou jornalístico ou de vídeo. A verdade que você divide, às vezes, uma verba que antes era direcionada só pras revistas, digamos; com muita coisa acontecendo, existe também o fato de que as marcas, elas entraram numa tendência de que se acham mídia. Ou seja, cada uma também tem seu site, faz os vídeos e faz tudo. Então você acaba por um lado: legal; quando esses caras contratam vários profissionais, mas por outro nem tanto porque a coisa fica meio caseira, as vezes. Ou seja: na verdade todo momento tem seus prazeres e suas dificuldades. Hoje também é muito legal eu poder fazer no Séria Ao fundo, por exemplo: entrevistas que eu estou na minha casa no Guarujá, o Renan está na guarda, o Thiago está em Jacareí e o diretor do programa está em outro lugar lá e a gente entrevista ao vivo e isso vai para tela da TV de hoje em dia que é o computador, fazer um entrevista com o Kikas em Portugal. Isso é bem interessante.

Eu estou falando em trabalhar com surf na parte que eu trabalho [jornalismo]. Imagino que para as marcas também, toda concorrência estrangeira, aí hoje em dia a diferença de dólar. Toda carga tributária nacional dificulta muito trabalhar com qualquer coisa, inclusive com surf no Brasil.

E só concluindo sobre esse negócio de “dor de cabeça ou mais prazer” tem uma coisa que me incomoda um pouco é o fato de que a maioria das coisas perde uma perenidade que existia na época das revistas, aqui no meu quarto eu posso pegar e abrir uma revista e vou achar e ver uma foto, “fotão” com qualidade e tal e coisa e todo material como virou muito mais ‘via’, internet, aliás, puramente isso. A verdade é que você quer buscar uma coisa e ela simplesmente some e acaba. Tudo é muito etéreo.

Cutback: Você acha que chegamos no ápice da evolução do surf ou teremos mais inovações daqui pra frente?

Edinho: Rapaz, eu acho que o surf ainda tem muito, muito, muito o que evoluir. Basta ver o que os caras estão fazendo em ondas cada vez maiores, seja no aspecto de manobras, seja no aspecto de entendimento do esporte e também no aspecto de desenvolvimento de materiais. Eu acho que o surf ainda tem muito o que evoluir.

Cutback: Alguém será maior do que o Kelly Slater no surf competição? Gabriel Medina está nesse caminho?

Edinho: Olha, eu acho que o Gabriel ainda tem chances de ganhar muitos títulos, coisa que eu acho que ele ainda fará, com certeza. No entanto, acho quase que impossível que haja outro Kelly Slater por todo ambiente que existe hoje em dia, o tipo de evento, como a coisa se configura, vai ser muito difícil, além do que o cara é muito fora do padrão. Lógico, hoje em dia o Gabriel vai vencê-lo, o Adriano, o Felipe, coisa e tal. Mas tornar-se onze vezes campeão mundial em uma mesma categoria é uma coisa inédita. O Slater, a meu ver, não só a meu ver, mas por vários analistas de esporte é o maior atleta que a humanidade já viu quando você computa vitórias.

Cutback: Pra finalizar, deixa uma msg para a galera do surf nesse momento difícil.

Edinho: Cara, eu vou lhe dizer que é super difícil deixar um recado para a galera já que eu não sei o que dizer nem pra mim mesmo. Mas, a verdade é que com o tempo a gente aprende que não há felicidade que dure o tempo inteiro, nem mau que persista infinitamente, então creio que as coisas voltarão ainda a normalidade e se você pode surfar, vá surfar. Se você não pode, não vá. A verdade é que tem muita coisa acontecendo e que não obedece a lógica alguma e a gente acaba se sentindo injustiçado, mas bom, tudo que você fizer, faça pensando no bem comum e eu espero que em breve todo mundo possa voltar ao mar normalmente para aqueles que ainda não estão de volta e quando surfar... surfa; porque você está afim de se divertir e esse é o principal e aí o único conselho: divirta-se.

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