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"Sempre tive bons resultados em ondas mais fortes" - Guilherme Herdy fala com o Cutback


Herdy no quintal de casa. Foto: Tony D'Andrea

Um dos brasileiros que mais vestiu a lycra de competição do WCT é o entrevistado dessa semana do Blog Cutback: o niteroiense Guilherme Herdy. Herdy competiu durante 10 anos na elite do surf mundial, de 1995 a 2004. Ele é o quinto brasileiro (empatado com outros atletas) com o maior números de temporadas no WCT, com 10 temporadas. Durante sua carreira na elite, Guilherme - infelizmente - não venceu nenhuma etapa do mundial, mas oportunidades não faltaram. Ele ficou com o vice em duas etapas do tour: em Mundaka, na Espanha, quando perdeu para Mack Occhilupo, em 1999, e a outra em Fiji, em 2000. E é essa história do paraíso fijiano que marcou a memória do carioca e também de muitos fãs que acompanharam na época. *Com informações da Red Bull Ao Cutback, Herdy conta um pouco da sua trajetória, de como perdeu o medo dos mares grandes, de Itacoatiara e mais. Confira!


Cutback: Você já caiu em algumas ondas da Região dos Lagos? Cabo Frio, Arraido do Cabo, Saquarema ou Búzios?

Herdy: Então, já surfei em todas as localidades na Região dos Lagos, em todas as ondas apontadas aí em cima. Amo esse lugar aí e tive altas sessões em todos eles: Arraial, Cabo Frio, Búzios, Saquarema. Saquarema com maior frequência e adoro todas as ondas, cara. Sempre quando tenho oportunidade estarei voltando aí, primeiro para rever os amigos e também matar as saudades dos lugares. Que vi passar a minha infância, então nota 1000.

Tubaço em Itacoatiara. Foto: Matheus Couto

Cutback: Você é um dos caras mais casca grossa do surf do mundo. Como fez para perder o medo dos mares?

Herdy: Então, medo é uma coisa que todo mundo tem, cada um sabe lidar da sua forma, com o que ta sentindo. Eu sinto medo, sim. Respeito por essa situação, quando a gente bate de frente em uma situação de mar grande principalmente. E aí aquela análise de como você está se sentindo, se está apto ou não, se está bem fisicamente, se está descansado o suficiente. Para poder suportar ali um momento difícil e partir para dentro, as vezes você não está num dia muito bom, precisa aprender a se respeitar, e respeitar o mar e a condição e é isso. Aprender a se entender para não poder tentar passar por uma situação ruim de risco de vida que a gente, na verdade, passa o tempo inteiro. E é isso, cada um enfrenta o seu progressivamente o seu medo pra poder chegar ai a um nível de enfrentar condições extremas.

Cutback: Olhando para o seu início no surf, com toda a dificuldade e luta, de que modo isso ajudou você a evoluir no seu surf?

Herdy: Então, em todo início todo mundo tem suas dificuldades, eu tive muitas. Morava longe da praia, não era próximo, tinha que pegar ônibus, não podia entrar com prancha no ônibus, difícil convencer os pais na época de deixar surfar e tal. Isso tudo fortaleceu a vontade e buscar superar as dificuldades que iam aparecendo e isso foi se tornando até, de uma certa forma, agradável. As coisas acabavam dando certo. As dificuldades eram superadas e foram aparecendo as competições que também tiveram suas dificuldades, suas barreiras e graças a Deus a gente com essa escola de dificuldade, de inicial de praticar o esporte fez com que a gente se fortalecesse e superasse todas as outras que vieram a frente. Então, isso me ajudou muito a evoluir e buscar o que eu precisava sem medo de que onde estivesse que ir pra aprender e isso foi muito importante.

Nem só de tubo vive o homem. Foto: André Cyriaco

Cutback: O seu surf sempre foi com drop rápido, rasgadas fortes. Surfar em ondas de Itacoatiara o auxiliaram nisso?

Herdy: Sim, a onda de Itacoatiara acho que foi essencial para eu obter bons resultados, principalmente de ondas fortes como Pipeline, como Mundaka, Fiji, Island. Sempre tive bons resultados em ondas mais fortes e com certeza Itacoatiara tem influência muito grande, eu agradeço muito por ter tido essa oportunidade de aprender aqui, como você mencionou aí é uma onda que é muito rápida, ela faz com que você tenha que ter um drop muito rápido e é uma onda rápida e intensa e muitas vezes imperfeita assim. Tipo, ela pode mudar, às vezes você acha que a onda vai ser suave e ela se transforma num tremendo buraco, da um tubão, sempre apresentando muitas surpresas e isso te prepara para muitas coisas, te deixa pronto, principalmente para condições mais perfeitas e mais pesadas e graças a Deus isso aconteceu comigo e sou super feliz e teve uma influência muito grande realmente nas manobras fortes e tudo, pela onda ser de uma potência elevada.

Cutback: Você conquistou muitas coisas no surf, levou o nome de Niterói para o mundo. Você em noção dessa conquista? Sabe o quanto é importante para muitos?

Herdy: É sim, eu nasci em São Paulo, mas com um ano vim morar em Niterói, na verdade muitas coisas que eu aprendi foi a partir daqui. Obviamente teve influência nas minhas idas a São Paulo no meu crescimento, ir para o interior de São Paulo (família da minha mãe), aprendi muitas coisas. Tem um pouco de noção, sim, porque foi bastante tempo de carreira, algumas vitórias, algumas derrotas também, alguns problemas de contusões, isso tudo faz a gente crescer e sentiu o calor e o carinho da galera quando as vezes você está precisando de um afago para superar algum momento difícil.


E sempre tive aí esse acesso a galera, os amigos, os torcedores e isso faz você ter um pouco de noção. Vejo que a galera tem um carinho enorme pelo trabalho que eu fiz de competição e de representar o país e tirar proveito disso para poder aprender com a galera, trocar e crescer. É muito importante, é muito show isso, depois de um tempo vê esse reconhecimento é muito agradável, prazeroso poder trocar isso com as pessoas.

Vraaaau. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Cutback: Como foi o período de isolamento onde não se pode surfar? Treinou em casa, ficou com a família...?

Herdy: Então esse momento de isolamento social, foi um momento muito difícil, um momento onde todo mundo teve que se superar com as coisas, com alimentação. Não pude fazer as coisas e os primeiros 20 dias foram bem difíceis, depois dos 20 dias comecei a sentir dor, falta de me movimentar, fazer um surf, remar, apesar de estar fazendo exercício em casa. Mas atividade de alto rendimento, que puxa mesmo, preparo ali de estar dentro d’água surfando é só no surf mesmo e isso me fez muita falta. Esse contato com o mar de mergulhar, nadar, remar só foi melhorar um pouco depois que eu consegui dar um mergulhinho no mar, mesmo que proibido fui para dar uma respirada. Parecia que estava faltando oxigênio [risos]. Mas, graças a Deus está dando para levar, agora teve uma flexibilização, então está um pouco melhor para surfar, para trabalhar. Então está melhor, podendo estat com a família, rever alguns amigos e seguindo aí.

Cutback: Conta algum perrengue que você já passou em um mar gigante. Herdy: Questão de perrengue teve alguns, cara. Teve um que foi meio assim, meio comédia, mas meio assustador. Na Austrália, estava eu, Peterson, Renatinho, Vanderlei. A gente foi passar um tempo em Western e entre os campeonatos lá acabou que a gente estava surfando num dia mais tarde e estava meio mexido. Pô a gente avistou que eram dois tubarões enormes e saímos voados da água, praticamente escalamos as pedras. E cara, eu vi e avistei o tubarão, ele estava mais próximo de mim e eu quis tentar avisar ao Perterson e ao Renatinho, quando eu fui avisar eles, eles já estavam voando para cima de uma espuma, e eu tentando avisar fiquei para trás com um medo do caramba cara, e aí peguei a espuma de trás muito cabreiro. Pô diante de dois monstros assim, dois tubarões enormes e a gente saiu e eu fiquei em pé na espuma. Saí no rasinho, correndo e desesperado, quando olhei os dois estavam correndo subindo em cima da pedra. Eles gritando “car*&%*, você viu aquilo? Você viu aquilo?”, desesperados que a gente foi embora. Depois para surfar de novo foi perrengue total porque o medo né, tudo ali muito próximo e aí encontramos os australianos e os caras indo surfar avisamos que tinham dois tubarões enormes e os caras “tranquilo, estamos aqui todo dia”. É ruim de entrar de novo, ficamos uns dois dias sem surfar com medo.

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