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"Sempre viajei bastante para o Havaí e ficava mais tempo" - Bernardo Pigmeu conversa com o Cutback

Atualizado: Jul 11


Pig no quintal de casa. Foto: Thiago Leão

O Blog Cutback entrevistou nessa semana um dos melhores tube riders do Brasil, o pernambucano Bernardo Pigmeu. Pigmeu disputou o WCT em 2005 e 2007. O atleta conseguiu grandes resultados no período, onde foi vice-campeão em duas etapas: nas geladas ondas de Thurso, na Escócia, e em Tahara, no Japão. Pig, como é conhecido, é considerado filho de Fábio Gouveia e se inspira nele quando está dentro d’água. No currículo, Bernardo Furtunato de Miranda Neto, o Pigmeu, natural do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, agrega conquistas nacionais e internacionais. Começando pelo Campeonato Pernambucano, o qual ganhou três edições; ele foi bicampeão nordestino, venceu o Brasileiro e chegou ao posto de melhor amador do mundo em 2000. Durante 14 anos, construiu sua história no circuito mundial de surfe, contando com duas temporadas na principal elite de surfistas do planeta. Ao Cutback, Pig falou sobre as ondas da Região dos Lagos, de como a dificuldade no início de carreira o ajudou a evoluir, o seu maior perrengue no mar e mais. Confira!

Cutback: Você já caiu em algumas ondas da Região dos Lagos? Cabo Frio, Arraido do Cabo, Saquarema ou Búzios?

Pigmeu: Já sim, eu já surfei em Cabo Frio com Victor Ribas, cai lá na Praia do Foguete, altas ondas. Fiquei lá com Vitinho, gostei demais, gostaria muito de voltar lá mais vezes porque eu gostei da região, das ondas. E Saquarema, que é o Maracanã do surf, é o lugar onde praticamente começou a história do surf no Brasil e é uma onda que não existe igual aqui no Brasil, é uma onda com uma força impressionante, tamanho. A qualidade da onda de Saquarema.

É um lugar que eu sempre fui desde criança para correr o circuito brasileiro amador e sempre que eu tinha a oportunidade ia para Saquarema para treinar, pegar onda, porque é uma onda que, como eu falei, é uma onda de muito tamanho, com potencial muito grande e muito importante para quem está competindo o circuito ter o conhecimento de uma onda desse porte em Saquarema.

Cutback: Você é um dos caras mais casca grossa do surf do mundo. Como fez para perder o medo dos mares?

Pigmeu: Desde criança sempre me esforcei demais, sempre viajei bastante para o Havaí e ficava mais tempo que o necessário lá. Eu ficava mais tempo que o restante da galera para ficar treinando, ficar me aperfeiçoando em ondas que são difíceis e que a gente não tem aqui, só existe no Havaí e quando eu tinha oportunidade ia para o México. Estava sempre viajando para estar me aperfeiçoando em ondas de qualidade. Uma grande sorte que eu tinha um patrocinador que sempre me deixava a vontade e sempre me mandava para esses lugares para estar treinando e isso me ajudou muito a aprimorar minha técnica nessas ondas de tubo e tudo mais.

Sobre o medo, eu fui perdendo no decorrer [da carreira], quando criança eu sempre fui muito afoito - posso dizer assim - então, tipo eu sempre entrava em Pipeline por mais que eu não ia cair e pegar as ondas, mas eu gostava de ficar no canal observando a galera surfar, sempre gostei de cair em Sunset e em outros mares. Aí com o decorrer do tempo, eu fui perdendo o medo e essas ondas que as pessoas geralmente classificam como difíceis são umas ondas que, com o passar do tempo, eu fui gostando demais de surfar. Eu fui criando um prazer muito grande e isso foi me ajudando a perder o medo e ganhar a confiança pra surfar elas.

Pigmeu na Praia do Francês. Foto: Frank Cordeiro

Cutback: Olhando para o seu início no surf, com toda a dificuldade e luta, de que modo ajudou você a evoluir no seu surf?

Pigmeu: A dificuldade foi algo muito importante para mim, tanto na minha vida profissional como surfista como na minha vida pessoal porque me fez querer treinar mais do que eu deveria, ficar focado mais do que eu deveria e a querer buscar evoluir. Porque como existe uma dificuldade bem maior em todos os sentidos, graças a Deus eu sempre tive um patrocinador muito bom que sempre me deu todas as oportunidades do mundo que eu precisava, mas por morar no nordeste queira ou não o nordeste sempre enfrentou uma dificuldade maior do que os atletas de outras regiões do Brasil.

Então, até para gente ter um destaque aqui a gente precisa treinar e se esforçar mais que o normal e com certeza isso me trouxe bons frutos. Para mim foi muito bom e até por ser uma região que não tem ondas tão grandes, então devido a isso eu sempre ia para os lugares eu ficava mais [tempo] do que normal que as outras pessoas. Então esse tipo de coisa, dessas dificuldades que foi me ajudando a melhorar cada vez mais.

Cutback: O seu surf é muito agressivo, rápido. Surfar em ondas do Nordeste, que muitas das vezes são de vento, o auxiliaram nisso?

Pigmeu: Com certeza. Como as ondas aqui no nordeste são menores, exigem uma agilidade maior do surfista na leitura na onda para estar executando as manobras, então com certeza, morar no nordeste e ter que surfar esse tipo de onda aqui me ajudou a ser mais ágil na onda, com certeza.

Cutback: Você veio de uma região do Brasil que não tem tanto investimento no surf e conseguiu ser um dos melhores do mundo em um esporte difícil. Você tem noção dessa conquista? Sabe o quanto é importante para muitos?

Vraaaaaau. Foto: Guilherme Fonseca

Pigmeu: Quando eu estava ali na ativa e tudo, até porque na minha época a informação não era tanta quanto é hoje. A gente viaja muito, mas não era esse feedback que tem hoje. Talvez hoje eu consiga perceber o quanto naquele momento não só eu como outros surfistas também foram peças fundamentais para evolução do esporte no Brasil, para puxar outras gerações e hoje talvez eu consiga ver isso mais claramente e com certeza também o fator da região de onde.

Eu sempre tive patrocínio da Hang Loose isso me ajudou muito e acho que é isso. Hoje eu consigo ver melhor nessa situação aí de saber da importância que a minha geração, que eu tive na nossa época.

Estilo para passar o lip. Foto: Divulgação

Cutback: Como foi o período de isolamento onde não se pode surfar? Treinou em casa, ficou com a família...?

Pigmeu: Aqui onde eu moro, na Praia do Francês, em Maceió, a gente pôde surfar desde o início até hoje. A gente em momento algum foi obrigado a não estar pegando onda ou coisa do tipo, então eu estava sempre surfando e graças a Deus a gente não foi proibido porque foi na temporada muito especial. A gente teve muita onda boa aqui esse ano e me ajudou muito a estar surfando porque ficava em casa isolado, trancado, evitando sair para rua como todo mundo.

Mas saía de casa, pegava o carro, ia surfar um pouco, voltava e foi o que me salvou nessa quarentena, porque se não eu acho que eu ia ficar louco. Também aproveitei esse outro lado, pude ficar mais em casa com minha família, cachorro, organizando as coisas dentro de casa, documento, coisas que estavam quebradas ali eu arrumava, deu para viver essas outras coisas também que foram muito boas e importantes.

Cutback: Conta algum perrengue que você já passou em um mar gigante. Pigmeu: Foi em 2007, em Fiji, quando estava tendo etapa lá do WT. O mar estava gigante em CloudBreak, devia ter uns 20, 25 pés de onda, o campeonato foi cancelado em CloudBreak e foi transferido pra Restaurants que fica menor até que certo dia rolando campeonato. A gente não tinha muito o que fazer, juntei com alguns gringos: Taylor Knox, Phil McDonald e outros. Pegamos o barco e fomos lá pra Cloudbreak ver o Kelly Slater, Laird Hamilton, Shane Doran fazer tow in. E nesse o dono da ilha lá de Cloudbreak estava de JetSki, ele foi lá falar com a gente, falou que a gente não podia surfar na remada porque estava impossível e muito perigoso.

Não tinha a intenção de surfar. Mas de olhar mesmo e sentir a adrenalina e mesmo assim a gente resolveu pular na água e ficar do canal olhando os caras pegarem as ondas, para sentir a adrenalina mais de perto, foi o que a gente fez. Ficou um grupo de surfista mais na frente, eu fiquei mais atrás sozinho, parou de vir onda e nesse momento que parou de vir onda, a correnteza jogou a gente para debaixo do pico e a gente não percebeu e do nada veio uma série enorme e eu remando que nem louco.

O pessoal passou a primeira onda, na segunda eu fiquei para trás, e aí acabei tomando ela e voltando com ela e fiquei muito tempo embaixo d’água preso na correnteza que tem no fundo do mar, e estava cansado já de tentar me salvar e achei que eu ia apagar, aí o rapaz dono do JetSki ia me acordar em cima e desisti de remar. Só que daí do nada, eu olhei para cima, a água transparente, vi a prancha, a marca de Jetski e resolvi remar, subi com tudo e na hora ganhei ânimo, ganhei fôlego, acho que eu descontraí meus músculos porque eu comecei a ficar tonto querendo apagar e dizem que quando você chega nesse ponto você descontraí seu corpo e seus músculos ganha mais oxigenação. Então acho que foi o que me deu ânimo e eu consegui subir.

Subi já com a cabeça batendo no Jetski, e me agarrei, foi sorte porque em seguida já vinha outra série enorme e aí deu tudo certo, cheguei ao barco com o nariz sangrando, acho que da pressão e tímpano estourado e tudo. E essa com certeza foi a vez que eu escapei de morrer, acho que foi essa no surf, assim em questão de caldo. Então pra mim foi muito marcante e foi uma situação complicada e é isso.

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