Buscar

"Surfista também tem medo" - Carlos Burle conversa com o Cutback


Burle curtindo uma "marola". Foto: Arquivo pessoal

Na Região dos Lagos existe todo tipo de onda, ideal para cada nível de surf. Ondas tubulares, fortes, de vala e muito mais. Saquarema, cidade da região, é conhecida como a capital nacional do surf, e é um dos locais mais famosos da modalidade, muito por conta das suas ondas fortes e grandes. Os surfistas nascidos no município são privilegiados pela constância de mar. Toda ondulação funciona nas praias saquaremense. Um dos maiores nomes do surf big wave, Carlos Burle é um dos admiradores da região e conversou com o Cutback sobre as ondas de Saquarema. Referência no segmento de ondas gigantes, Burle detalha o cenário carioca de surf, dá a sua opinião do porquê não ter surfistas fluminenses no WT e conta, também, como é lidar com o medo na hora de entrar no mar. Calos é treinador do Lucas Chumbo, um dos grandes nomes da atualidade do big surf. Lucas é cria de Saquarema e, segundo Burle, ele teve - além do talento e vontade - o privilégio de ter as ondas da cidade para treinar. Carlos Burle chamou a atenção do mundo em novembro de 2001, em Mavericks, na Califórnia, quando surfou a maior onda já registrada até a época, com 68 pés (cerca de 22 metros). Em 98 Burle já tinha entrado para a história ao surfar a perigosa onda de Killers, na Baía de Todos os Santos, no México, e sagrou-se Campeão Mundial de Ondas Grandes na remada. Confira a entrevista!

Mar histórico em Saquarema. Foto: Greg Braga

Cutback: Há um tempo vi que você e uma galera do big wave pegou uma onda rara em Saquarema. A galera da Região dos Lagos que quer seguir nas ondas grandes pode ter um início em Saquarema?

Burle: Olha só, Saquarema é um lugar muito privilegiado para quem quer surfar, tem uma constância incrível, recebe ondulação de todas as direções e geograficamente é muito exposto no mapa, isso faz com que a ondulação de Saquarema seja sempre um pouco maior do que em outras regiões do litoral carioca e é uma capital do surf nacional. Acho que é “a capital”, o principal palco do surf nacional, onde os maiores festivais aconteceram antigamente e não é a toa que ela tem esse nome todo, é uma referência, tem a etapa do circuito que acontece em Saquarema e nos últimos anos com ondas excelentes.

Então, não é a toa que Saquarema é essa referência no surf. Então se você quiser ser surfista de ondas grandes, Saquarema oferece condições para você treinar bem. Lá tem o Marcos Monteiro, tem o Patrick, tem o Lucas Chumbo, família Chianca toda, fora outros talentos locais que surfam muito bem ondas grandes, a maioria dos surfistas lá são “powersurf”... o Léo Neves que nos deixou recentemente tinha um surf incrível, power, o próprio Raoni Monteiro e outros surfistas muito bons. Saquarema é, sim, um lugar excelente pra quem quer surfar ondas grandes.

Cutback: Muitos surfistas tem medo de um mar acima de 1 metro. Como foi o seu início, como fez para encarar o seu medo?

Burle: Eu sempre gostei de desafios. Graças a Deus quando eu comecei a surfar lá no nordeste, eu comecei em mares muito pequenos e aos poucos fui estendendo meus limites, conhecendo outras ondas, até começar a viajar para Fernando de Noronha, onde eu vi uma onda muito grande, até então bem desproporcional do que eu via. Você tem que se preparar para o medo, você se prepara, vai treinando, você vai botando tempo, vai se expondo e você começa a se acostumar com aquela situação, até você sentir que consegue controlar aquelas emoções. Essa é a melhor forma de você lidar com o medo, você se preparando. Por exemplo: surfista tem medo de se afogar, tem medo de se machucar, então quanto mais condicionado fisicamente, quanto mais preparado emocionalmente, mais forte ele vai se sentir confiante na hora de surfar e ele tem que botar a prova. Não tem como não evoluir, quero dizer não tem como evoluir sem se expor, sem se colocar em posições de risco.

Um dia "normal" em Jaws. Foto: Divulgação

Cutback: Você é um dos caras mais influentes o surf. Até saindo um pouco da modalidade... sendo reconhecido por pessoas que não consomem o surf. O Gabriel Medina também está nesse caminho. Em sua opinião, o surf poderia ter mais atletas assim?

Burle: Eu acho que é super importante você quando representa um esporte, é apaixonado por aquele esporte e consegue viver do esporte como é o meu exemplo e também do Gabriel - como você colocou - você querer retribuir para que aquele esporte cresça e a gente sabe que o surf que já cresceu muito. Está chegando as olímpiadas, tem piscina de ondas, está levando para vários países que não tinham acesso a essa modalidade e a gente precisa de mais praticantes, a gente precisa de pessoas que se engajem mais com o nosso esporte, uma das maneiras da gente retribuir o esporte é justamente se comunicando um com outas mídias, com outros públicos. Levando as pessoas a entenderem que o surfista profissional tem por escolha aquela profissão ‘surfista’, mas ele é um atleta como qualquer outro, que se dedica 24 horas para que os resultados aconteçam e isso termina valorizando o esporte, o esporte cresce, as pessoas entendem como ele funciona. A gente tem o estilo de vida também que é muito propício, com sustentabilidade, de saúde, coisas que são inerentes de todos, então eu sempre tive isso na cabeça, sempre quis levar o surf para o grande público porque foi isso que aconteceu na minha vida, o surf é apenas uma ferramenta para que eu possa viver mais perto desses elementos que eu gosto muito: natureza, saúde e qualidade de vida. E eu acho importante que a gente tenha atletas que pensem dessa forma e queiram fazer com que as pessoas conheçam mais o nosso esporte e os nossos valores.

Cutback: Qual o principal treinamento para pegar um mar um pouco maior do que é habituado?

Burle: O principal treinamento é você se dedicar, ter uma preparação física boa, você ter um cardiovascular porque você vai precisar bastante quando você tiver tomando muitas ondas na cabeça e você ter um emocional equilibrado. Então assim, não adianta você ser super forte, se você não tiver um emocional equilibrado, então fazer esse trabalho paralelo, sempre trabalhando as duas coisas juntas, o físico e o emocional. Se eu pudesse fazer só um trabalho, eu ia fazer o cardiovascular porque na hora ‘H’, eu vou precisar muito do cardiovascular e o cardiovascular pode te trazer um preparo muscular no sentido de força. Dependendo da maneira que você trabalha seu cardio, você pode trabalhar o cardio e força também. Força e alongamento são coisas super importantes pro surfista.

Lógico que é muito importante você trabalhar a mente, quem vai lidar com o medo constantemente é você e o medo é muito importante para você gerenciar os riscos. Por isso que você precisa estar com a mente equilibrada emocionalmente equilibrada. A situação, ela vai refletir diferentemente em cada indivíduo porque cada um tem um preparo emocional diferente do outro, você percebendo isso e atuando bem nas suas emoções na procura do equilíbrio, você vai conseguir um resultado positivo.

Swell no Taiti. Foto: Divulgação

Cutback: Hoje a gente vê uma galera muito forte vindo de São Paulo e outros estados. E meio que o RJ ficou um pouco pra trás. Isso pode ser a falta de investimentos?

Burle: O Rio de Janeiro, quando eu me mudei de Recife paro Rio em 1986, tinha uma plataforma excelente de base, a associação da Barra da Tijuca, todos os bairros tinham associações, tinham seus clubinhos, tinham seus campeonatos, depois tinham os campeonatos amadores, estaduais, tinham surfistas excelentes, patrocinadores, associação, todo mundo preocupado e a gente foi perdendo isso com o tempo. E o resultado está no que a gente vê, a gente não tem praticamente nenhum surfista do Rio de Janeiro hoje representando o nosso país no circuito mundial, no CT. A gente não tem nenhum carioca representando a gente no CT; no QS a gente tem alguns, mas no circuito principal a gente não tem. E esse número é bem maior onde essa relação com a categoria de base, a seriedade, profissionalismo e a maneira de ser conduzida a carreira mostra o resultado em números de representantes. Então fica meio fácil da gente entender o porque.

Burle e Lucas Chumbo. Foto: Arquivo pessoal

Cutback: Lucas Chumbo é treinado por você e ele é um cara da Região dos Lagos. Voltando para a pergunta 1, ele por ser de Saquarema ajudou na adaptação às ondas grandes?

Burle: O Lucas tem um tio. Um padrinho que se chama Marcos Monteiro, ele é de Saquarema e salva-vidas, eu corri o circuito mundial de ondas grandes com ele há alguns anos, um excelente atleta, nível de melhores do mundo e uma pessoa também incrível de cabeça e ele desde o começo fala pra mim “olha só, você tem que prestar atenção nesse garoto, nessa família. Mais em especial no Lucas para surfar ondas grandes”, ondas gigantes que a gente fala e é lógico que vivendo em Saquarema com tudo que eu já falei na pergunta que você mencionou ajuda bastante. Porque você tendo a coragem, tendo a vontade e ainda tendo as ondas para treinar, o resultado é bem mais positivo.

Cutback: O que você tem feito na quarentena? Ficado mais com a família, treinando...?

Burle: Eu estou no Havaí, aqui você pode surfar, eu tenho treinado, tenho surfado, tenho dado atenção para minha família, tenho trabalhado bastante. Agora existe demanda de conteúdo enorme, a gente está vendo isso e para mim não é diferente. Então, eu tenho cuidado da minha saúde física, emocional, minha família e treinado bastante em um ambiente super saudável.

Cutback: Pra finalizar. Poderia deixar um recado para a galera do surf?

Burle: O surf como ferramenta, pra finalizar. De evolução em todos os sentidos. Físico, emocional, espiritual, conexão com a natureza, um aprendizado constante que a gente tem com as experiências dentro d’agua. Humildade, gratidão, vulnerabilidade, incertezas e paciência. Resiliência, cair, levantar, relacionamento com o meio ambiente, tanta coisa que o surf nos ensina. Então, aproveitem o surf como ferramenta de evolução, independente da relação que você tenha com esse esporte lindo e maravilhoso.

©2019 by Blog Cutback. Proudly created with Wix.com