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"Vai ter sempre espaço para quem quiser trabalhar com o surf" - Bruno Bocayuva fala com o Cutback


Surfe em Peniche, Portugal - 2016. Foto: Divulgação

O jornalismo especializado de surf já teve dias melhores. Quem não lembra das revistas trazendo novidades da modalidade, marcas, fotos, colunas e muito mais? Com a era digital as revistas ficaram para trás e a comunicação no segmento se transformou.


Junto com as ferramentas do jornalismo, a linguagem e os conteúdos também mudaram. As redes sociais, se bem trabalhadas, tornaram-se importantes veículos de comunicação.


Por isso, o Blog Cutback conversou com um dos maiores nomes do jornalismo de surf do país, Bruno Bocayuva, para saber como realmente está a comunicação no meio do esporte. Bruno fala sobre as dificuldades, o momento das marcas e mais.


Bruno entrou no mercado de comunicação em 1990, em uma agência de marketing esportivo, e depois começou a trabalhar com Ricardo Bocão e Antonio Ricardo, que produziam o programa Realce e no, agora extinto, Canal Woohoo.


Confira a entrevista completa! Cutback: Como você vê o cenário do jornalismo de surfe hoje em dia?

Bocayuva: Eu acho que o grande desafio atual é que os veículos perderam espaço com a revolução digital, principalmente a partir das mídias sociais como Instagram e afins. Os veículos tradicionais perderam espaço para os indivíduos, se a gente pensar numa maneira simples de observar isso, pegando os números do grande fenômeno internacional que é o Gabriel Medina, ele no Instagram, tem... nem sei os números atuais, mas deve ter próximo de nove milhões de seguidores e se você pegar a própria WSL, que é a realizadora dos principais circuitos internacionais, o principal portal de produção de conteúdo e de realização de eventos, o Gabriel tem mais seguidores que a WSL somando com John John Florence, se bobear Kelly Slater. A empresa, a liga e mais dois grandes ícones do surf internacional somados não chegam aos seguidores do Medina, isso exemplifica se a WSL perde fácil pro Medina ou não. Então vocês imaginam o quanto perdem os outros veículos menores ou até medianos como os grandes sites internacionais como Surfline ou até a herança digital como as revistas surfer magazine. Então, o grande desafio do jornalismo hoje é ter uma representatividade lutando contra esses números astronômicos dos indivíduos. Então acho que é um grande desafio hoje é estar presente nas mídias sociais porque impresso praticamente não existe mais, os sites tradicionais também perdem um pouco de relevância na medida que as pessoas se informam através das mídias sociais. Então, o desafio é ter consistência, ter qualidade, ter presença e ter números fortes e sólidos nas mídias socais, acho que esse é o grande desafio.


Entrevistando Italo Ferreira em Peniche, Portugal - 2015

Cutback: Lá atrás, antes da era da internet, revistas dominavam os veículos especializados na modalidade. Em sua visão, as revistas "acabaram" ou ainda cabe nos dias atuais?

Bocayuva: O apogeu das revistas a gente já viveu isso, mais ou menos ali na última década do século passado e no comecinho desse século, desse novo milênio. Mas isso jamais retornará aquele quadro, a revolução digital é uma realidade. Eu acho que o formato e a periodicidade das publicações tradicionais do passado jamais serão repetidos, então ainda existe espaço para projetos especializados em surf impresso, mas eles têm que ser desenvolvidos com uma outra pegada, com uma outra roupagem, com uma outra periodicidade e eu cito como exemplo de sucesso e de sobrevivência nesse mercado cada vez mais difícil, não é nem disputado porque não existem mais tantas publicações, mas eu digo disputado/complicado, é o da Surfer Journal da Califórnia, nos EUA. Que desde a sua criação desenhou para si um projeto único, diferenciado dos modelos vigentes na época e hoje eu acho que esse modelo diferenciado que proporcionou que o The Surfer Journal sobrevivesse a essa revolução digital e a revolução das mídias sociais. Esse projeto ta calcado no projeto especial do produto, desde as fotografias, passando pela pauta, passando pelos colaboradores de texto e também de fotos dos designers, sempre foi um projeto muito caprichado, muito especial, muito bem trabalhado, muito elaborado. Então, eu acho que ele sobrevive até hoje por conta disso, dessa elaboração, dessa profundidade que ele desenhou desde o início e eu acho que se repete até hoje o modelo de negócio que é apoiado por quem o segue, ou seja, na época da revista eles se diziam “reader supported” ou seja: apoiado pelos leitores. Claro que esse desafio hoje fica enorme nas redes sociais, especificamente no Instagram, que não existe monetização tão sólida à partir da leitura, das pessoas seguindo, curtidas. Mas acho que o The Surfer Journal consegue sobreviver justamente por ter um desenho único. Um caráter muito especial, muito elaborado em todos os processos da sua criação. Então acho que ele sobrevive muito em função desse projeto único e dessa qualidade em todas as esferas do seu produto.

Entrevistando Kelly Slater em Peniche, Portugal - 2013

Cutback: Por trabalhar por muitos anos na área, você ainda vê dificuldade no jornalismo de surf?

Bocayuva: Acho que todas as perguntas aí que você me colocou estão relacionadas de alguma maneira entre si. A dificuldade do jornalismo de surf atual, é um pouco do que eu já descrevi nas últimas respostas, é ter relevância, é ter um algo especial, uma assinatura, um estilo, algo de que de fato encante o leitor, o seguidor, porque existe hoje em dia é uma profusão de informação, existe muita quantidade de informação. Existe uma quantidade de imagens e notícias, mas falta um pouco mais de profundidade, de elaboração, de capricho, às vezes de humor, de densidade cultural, então acho que o desafio do surf jornalístico hoje em dia é justamente o diferencial, tem muita coisa no mercado e as coisas estão muito parecidas, então acho que o desafio é esse. É ter um estilo, uma pegada única, uma assinatura para que o veículo e o indivíduo jornalista se destaque.

Cutback: As marcas de surf wear deveriam olhar mais para veículos de comunicação especializados?

Bocayuva: Aí eu acho que vem uma outra análise, porque essa pergunta, dentro do cenário atual, é um pouco ingênua na medida que a indústria de surfwear como a gente conhecia no passado, ela não existe mais, ela não tem mais a força que tinha. Ela cresceu demais numa época de muita pujança financeira, não só do segmento do surf, como do mundo capitalista de uma maneira geral. E se ela já estava numa crise de identidade nos últimos anos, uma crise também de vendas, ou seja: essas se popularizaram demais e o público, que os publicitários gostam de usar os termos em inglês, “core” se afastou dessas marcas tradicionais muito em função dessa popularização delas, delas terem extrapolado o ambiente da praia e o ambiente do surf. Então eu acho que elas [marcas] jamais, durante essa crise atual, realmente não vão olhar com muito carinhos para os veículos especializados, porque elas estão lutando pela própria sobrevivência delas. Acho que primeiro elas têm que se reestruturar, lutar contra essa crise de identidade, rever valores, conceitos e também design. Aí sim voltarem a apoiar os veículos especializados, mas eu acho que hoje em dia o caminho dos veículos especializados não dependerem apenas das marcas do segmento dito surfwear ou das marcas que gravitam em torno do surf. E os projetos da WSL hoje em dia comprovam isso, as ‘surfwears’ estão cada vez investindo menos, capacidade de investimentos nos eventos e nos patrocínios e todos esses jogadores, esses players no mercado estão buscando marcas não endêmicas, marcas de fora do segmento, mas que de alguma maneira tenha interesse nesse estilo de vida, nessa imagem que o surf projeta pro mundo. Então acho que o caminho para os grandes veículos como para os veículos especializados é buscar o apoio de marcas não endêmicas para os seus projetos, porque não tem só mais dinheiro como elas também estão aí mais suscetíveis ao balanço do mercado.

Bruno surfando em Hossegor, França - 2017

Cutback Um repórter de surfe deve ter noção de tudo sobre o esporte?

Bocayuva: Eu acho que depende de qual é a intenção dele no seu trabalho, do que ele pretende alcançar e qual seria o desenho desse projeto. Eu acho que tem espaço para muita coisa. Hoje em dia com essa revolução digital, se ela pulverizou o mercado, destruiu os impressos, trouxe uma série de desafios que são gigantescos e de alguma maneira negativos, ela também proporciona algo de bom nesse caminho que é a democratização dos meios de produção. Antigamente um veículo especializado precisava de uma grande estrutura física, muitos profissionais para elaborar as coisas, o maquinário era muito caro e muito grande e ocupava muito espaço. Hoje em dia com um bom telefone, com uma câmera fotográfica e um lap top, o cara pode produzir um blog, pode produzir uma revista eletrônica, pode produzir uma série de projetos, que alcance o mundo, se tiver qualidade e relevância vai fazer sucesso e eu acho que o jornalista que tiver envolvido nesse caminho ele deve saber o que ele quer atingir. Então ele pode tanto se segmentar no universo do surf focando mais a atuação dele em competições e nas estrelas do esporte desse ambiente competitivo, como ele pode ter uma visão mais global e ter um alcance e olhar para todas as vertentes do surf. Mas eu acho que independentemente da escolha que o profissional faça, eu acho que quanto mais repertório, quanto mais cultura, não só de todas as vertentes, de todos os caminhos do surf, mas de cultura geral, de outros esportes, de artes, enfim da vida de uma maneira geral. Quanto mais repertório, quanto mais estofo intelectual um jornalista tiver seja qual for o campo que ele vá escolher pra atuar, eu acho que vai ser melhor. Então, acho que é fundamental o domínio da língua inglesa no ambiente do surf e quanto mais experiência ele tiver,não só de pesquisa, mas de vivência na rua, no eventos, viagens e embarques de free surf. Quanto mais vivência ele tiver, não só uma cultura acadêmica, uma cultura de pesquisa, mas uma cultura da estrada da vida, dos palanques, melhor.


Bruno e Gabriel Medina em Hossegor, França - 2017

Cutback: Você fez parte de um dos maiores canais de esportes de ação do país, o Woohoo. Infelizmente, o canal teve que mudar as diretrizes e "acabou". O quanto esse veículo foi importante para o surf, na sua visão?

Bocayuva: A vida é feita de ciclos e WooHoo como empreendimento teve seu ciclo ligado ao surf que veio desde 2006 seguindo até 2019, então durante todo esse período aí, quatorze temporadas de atuação nesse ambiente. Então, eu acho que ele ajudou muito, um veículo de televisão a cabo que fale e tenha o surf como um dos seus temas centrais sempre favorece a disseminação de informações, enfim a divulgação de eventos, de personagens, então o WooHoo foi importante para o segmento do surf no Brasil nesse período. Mas os sócios do empreendimento julgaram que era o momento de apostar em um outro cardápio de atrações, e aí trocaram de esportes de ação pelo universo das artes marciais em nome muito provavelmente de um alcance maior, mais oportunidades comerciais. Eu pessoalmente não acho que o caminho seja esse, eu acho que tinha um caminho de prosperidade ainda investindo no surf, mas eu era só uma peça importante desse tabuleiro, mas não era sócio então não tive essa oportunidade de influenciar nessa decisão. Mas foi muito importante, foi muito saudável a existência dele nesse período, mas esse ciclo se encerrou no ano passado e o surf perdeu essa janela.

Cutback: Para finalizar, deixe uma mensagem positiva para esse momento de difícil. Bocayuva: Mensagem final aí pra galera que curte o Blog Cutback e segue as postagens aí em todas as mídias, plataformas. Eu acho que fui muito realista em todas as minhas respostas e de certo modo isso pode parecer pessimista, mas eu acho que tudo na vida tem um lado yin e yang, tem o lado pró e o lado contra e se a gente tem grandes desafios nesse mercado pulverizado atual, eu acho que a gente tem novas possibilidades. Então, acho que quem enveredar por esse caminho tem que saber que a luta é árdua, mas que a gente tem ferramentas hoje em dia para lutar nesse ambiente e se a pessoa tiver amor, respeito, dedicação e buscar informação, elaborar seus conteúdo, tiver capricho no processo de produção do seu conteúdo ela pode se dar bem. Se os grandes veículos têm um desafio maior, às vezes um indivíduo, um blogueiro, um site, um empreendimento em menor estrutura pode vingar, ter sucesso se ele respeitar, se dedicar e a cada etapa do seu processo de produção. E acho que a gente está diante dessa pandemia do Covid-19 que quando isso acabar, a gente vai estar diante de um novo mundo, de uma nova era e eu espero que nessa nova era a gente respeite a natureza, respeite a diferença na sociedade, nas pessoas que não pensam como a gente, que não agem como a gente. A nossa liberdade vai até onde ela esbarra com a liberdade do outro, então acho muito importante essa consciência coletiva de pensar globalmente, agir localmente e o surf é um fenômeno, um esporte que como poucos abriga em torno de si uma cultura, uma série de outras atividades que gravitam em torno do esporte e isso é muito rico, muito frutífero e a gente pode tirar proveito não só profissionalmente, mas também pessoalmente dessas experiências e evoluir. Então, acho que viva o surf! Vai ter sempre espaço para quem quiser trabalhar com o surf com dedicação, com amor e vale a pena sempre. O caminho é o que vale a pena sempre, obviamente mirar no alvo, no futuro, ter tática, ter técnica e se preparar paro que vem pela frente, mas a gente tem que viver o presente, viver de cada vez e com amor e com respeito seguimos essa onda aí. Valeu Lucas! Valeu galera do blog Cutback! Sorte, sucesso, saúde e prosperidade pra todos ai. Um abraço!

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